13.mai.26/Folhapress

Cultura China Brasil em foco: Mo Yan e Milton Hatoum debatem literatura no Fórum Unesp

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O cenário acadêmico e cultural brasileiro se tornou palco para um encontro de notáveis mentes literárias nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026. O Fórum Unesp, em seu segundo dia de programação, culminou em um diálogo enriquecedor entre o escritor chinês Mo Yan, laureado com o Nobel de Literatura, e o imortal da Academia Brasileira de Letras, Milton Hatoum. O debate, que abordou a circulação cultural da China no Brasil, inseriu-se em uma agenda mais ampla que, ao longo de três dias, explorou temas como geopolítica, economia e a crescente presença internacional chinesa.

Este evento de destaque ocorre em um momento estratégico, alinhado com o ano cultural Brasil-China, estabelecido após a visita do dirigente Xi Jinping em 2024, e reflete a intensificação das relações bilaterais. A discussão entre os dois autores sublinhou a capacidade da literatura de transcender fronteiras e construir pontes entre civilizações distintas.

Diálogo entre gigantes literários e pontes culturais

Durante o encontro, Mo Yan, autor de “As Rãs”, carinhosamente referiu-se a Milton Hatoum como seu “irmão mais velho”, rememorando sua primeira visita ao Brasil em 2014, quando conheceu o rio Amazonas. “A obra de Hatoum reflete o que ele viveu na margem do rio. A sua obra tem essa profundidade, é vasta e grandiosa”, elogiou o Nobel chinês, destacando a conexão entre a vivência e a criação literária.

Hatoum, por sua vez, enfatizou o poder universal da literatura. “Ela derruba barreiras culturais e linguísticas. É por isso que estamos aqui, eu e meu irmão mais jovem, falando de livros que lemos graças às traduções. Você lê um romance ambientado numa aldeia na China e entende a cultura daquele lugar. Você pode se identificar com aquilo”, afirmou o escritor manauara, ressaltando a importância das traduções para a compreensão mútua entre os povos.

A projeção global da literatura chinesa e o olhar brasileiro

Mo Yan é amplamente reconhecido como um dos autores chineses mais influentes no Ocidente, com sua carreira ganhando projeção internacional após a adaptação cinematográfica de “Sorgo Vermelho” por Zhang Yimou, em 1987. Sua obra foi fundamental para internacionalizar a literatura de seu país, integrando-se a um movimento mais amplo de projeção cultural da China no cenário global.

Questionado sobre a visita de Donald Trump à China, notícia que dominou as manchetes na quinta-feira, Mo Yan manteve-se cauteloso, afirmando ser “apenas um escritor” e que a questão era “política”. No entanto, expressou otimismo quanto ao diálogo: “Tanto a China quanto os EUA são grandes potências. O início de novos diálogos é uma boa notícia para o mundo. Até onde isso vai? Não sabemos, precisamos esperar com paciência, mas acredito que o diálogo traz progresso”. Este posicionamento reflete a complexidade das relações internacionais e a busca por estabilidade em um mundo multipolar.

Fortalecendo a sinologia brasileira: idioma e intercâmbio

A visita de Mo Yan ao Brasil e o debate no Fórum Unesp acontecem em um contexto de crescente interesse e investimento na Cultura China Brasil. No segundo semestre, a Unesp dará um passo significativo com a inauguração do curso de bacharelado em língua e cultura chinesa, no campus de Assis (SP). Além disso, a universidade celebra 18 anos de parceria com o Instituto Confúcio, uma instituição ligada a Pequim que tem sido crucial na difusão do ensino da língua chinesa no país.

Para Luís Antonio Paulino, presidente da fundação do Instituto Confúcio, a sinologia brasileira ainda está em fase incipiente, exigindo tempo e investimento. “Não podemos basear a nossa leitura da China a partir de terceiros, sobretudo do pensamento americano e europeu. Portanto, é fundamental o estudo da língua por aqui”, defendeu Paulino. Nestas quase duas décadas, cerca de 30 mil pessoas estudaram chinês pela instituição, e 800 alunos realizaram intercâmbios com a Universidade de Hubei, em Wuhan. O pesquisador e professor de português na Universidade de Macau, Giorgio Sinedino, reforçou essa visão, destacando a necessidade de “passar pela via-crúcis de aprender a língua chinesa” para construir uma sinologia autônoma e formar novos intérpretes do Brasil na China.

Sinedino também apontou o crescimento do ensino de português na China, com cerca de 60 universidades oferecendo o idioma em suas grades curriculares. Na última década, ele observou um aumento nas traduções e na popularidade de autores brasileiros como Clarice Lispector e Guimarães Rosa no país asiático, indicando um intercâmbio cultural bidirecional cada vez mais robusto.

Desafios e oportunidades na percepção da China no Brasil

Apesar dos avanços, a relação cultural entre Brasil e China ainda enfrenta desafios. Giorgio Sinedino resgatou o passado comercial entre os dois países, que remonta ao início do século 19 com a venda e o cultivo de chá, para ilustrar uma “relação paradoxal, na qual reconhecemos a sua importância econômica, mas não o seu aspecto cultural. A presença da China é complexa —e o que ela tem de duradoura na nossa cultura, ela tem de marginal”.

O escritor Suonan Cairang, nascido na província de Qinghai, na divisa com o Tibete, e representante de uma nova geração de autores chineses com circulação internacional, abordou a persistência de estereótipos. “As pessoas pensam na China e imaginam lanternas vermelhas e kung fu. Precisamos evitar estereótipos e promover traduções de livros. Ainda assim, nenhuma obra literária vai conseguir representar a China como um todo, são 5.000 anos de história”, ponderou Suonan, cujo conto “À Procura de Sinal” integra a coletânea “A Nova Literatura Chinesa”, publicada pela Editora Unesp e traduzida para nove idiomas.

O Fórum Unesp, que se encerrou nesta sexta-feira, 15 de maio, com um bate-papo entre Ailton Krenak, Antônio Carlos Secchin e Ana Maria Machado, ofereceu uma plataforma vital para essas discussões. Além dos painéis culturais, o evento abordou temas cruciais como a crise energética, questões geopolíticas e econômicas, refletindo a crescente atenção global à China e suas complexas relações com o Ocidente. Até domingo, 17 de maio, a feira do livro que integra a programação deve atrair cerca de 70 mil pessoas, consolidando o evento como um importante polo de debate e intercâmbio.

Aprofundar a compreensão sobre a China, para além dos clichês e das lentes ocidentais, é um passo fundamental para o Brasil. Eventos como o Fórum Unesp e o diálogo entre Mo Yan e Milton Hatoum são essenciais para desmistificar e enriquecer a percepção sobre uma das civilizações mais antigas e influentes do mundo. Para continuar acompanhando as análises e reportagens que desvendam os temas mais relevantes do Brasil e do mundo, fique conectado ao Diário Global, seu portal de informação relevante, atual e contextualizada.

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