Um projeto inovador na Argentina, que transformou a memória dos desaparecidos da ditadura militar em um álbum de figurinhas, trouxe à tona uma história pessoal surpreendente para seu próprio criador. Ariel Cuadra, um artista gráfico, descobriu um tio-avô desaparecido após o lançamento da iniciativa, que visava manter viva a causa das Mães e Avós da Praça de Maio.
A ideia de Cuadra era fomentar encontros e conversas, especialmente entre as novas gerações, sobre os horrores da ditadura argentina (1976-1983) e a incansável busca por justiça. Ele não imaginava que o álbum, que rapidamente ganhou repercussão, desvelaria um capítulo oculto em sua própria árvore genealógica, conectando-o diretamente a uma das mais dolorosas feridas da história do país.
O álbum como ferramenta de memória e conexão
Ariel Cuadra concebeu o álbum de figurinhas em meados de abril, observando o entusiasmo que esses itens geram, especialmente em períodos de grandes eventos como a Copa do Mundo. Sua intenção era capitalizar essa popularidade para um propósito muito mais profundo: homenagear as Mães e Avós da Praça de Maio, grupos que se formaram em 1977 para buscar seus filhos e netos desaparecidos pelo regime militar.
O lançamento do álbum ocorreu em um momento simbólico, pouco depois de o golpe militar de 1976 completar 50 anos. Este contexto ressaltou a urgência de preservar a memória histórica e de garantir que as novas gerações compreendam a dimensão do terrorismo de Estado que assolou a Argentina, resultando no desaparecimento forçado de cerca de 30 mil pessoas.
As Mães da Praça de Maio, com seus lenços brancos, tornaram-se um símbolo global de resistência e da luta pelos direitos humanos. O álbum de Cuadra se insere nessa tradição, transformando rostos e histórias em figurinhas colecionáveis, um convite à reflexão e ao diálogo sobre um passado que ainda ecoa no presente argentino.
A descoberta familiar e a tragédia de Roberto Castillo
A comoção gerada pelo álbum teve um impacto inesperado na vida de Cuadra. “Aconteceu algo anedótico, eu diria”, relatou ele. “Com toda a comoção após o lançamento, meu pai se sentou à mesa comigo e com a minha mãe e contou sobre um parente que foi detido e desapareceu.”
O parente em questão era Roberto Castillo, tio-avô de Cuadra e irmão de sua avó paterna. Castillo era um trabalhador e membro ativo da Juventude Peronista, um movimento político de grande influência na época. Ele tinha 40 anos quando foi levado de sua casa em Almirante Brown, na região metropolitana de Buenos Aires, na noite de 12 de janeiro de 1977, por militares.
O testemunho doloroso da família e a brutalidade da ditadura
O relato do sequestro de Roberto Castillo, documentado pela Comissão pela Memória, é um testemunho vívido da brutalidade da ditadura. Martín, filho de Castillo, que tinha apenas 8 anos na época, descreveu a invasão de sua casa por soldados armados. Inicialmente, os militares buscavam um ativista vizinho, mas ao ouvir o sobrenome Castillo, retornaram com violência.
“Eles a arrombaram. Nossa buldogue, Niki, agarrou a bota do policial e a mordeu, e ele atirou nela com sua espingarda”, contou Martín. A cena de destruição e violência marcou profundamente a criança. “Eu vi eles quebrando coisas, virando colchões de cabeça para baixo, revirando a cozinha. Foi horrível vê-los destruir nossa casa.”
Martín recorda o pai calmo, algemado com sua jaqueta vermelha e levado pelos militares, sob a promessa de que seria liberado em 24 horas. Uma promessa nunca cumprida. A família de Roberto Castillo nunca mais o viu, e ele se tornou mais um dos milhares de desaparecidos da Argentina, vítimas de um sistema de repressão sistemática que operava com centros clandestinos de detenção, tortura e extermínio.
A luta por verdade, justiça e o legado do projeto
A busca por Roberto Castillo, como a de tantos outros, foi longa e dolorosa. Somente em 2009, seus restos mortais foram exumados e identificados no Cemitério de Avellaneda, a cerca de 15km de sua casa, onde havia sido enterrado sem identificação. Em 2012, em um gesto de memória e reconhecimento, uma rua em Almirante Brown foi batizada com seu nome, perpetuando sua história.
A descoberta de Cuadra ressalta a importância contínua de iniciativas que buscam resgatar a memória e a verdade. “Foi a partir da criação deste álbum que começamos a construir nossa própria história familiar”, afirmou Cuadra, sublinhando o poder do projeto. “Imagino que isso também possa acontecer em outras famílias ou comunidades, e era essa a intenção também.”
O álbum de figurinhas das Mães da Praça de Maio transcende a mera coleção, tornando-se um catalisador para a cura e a construção de uma memória coletiva. Ele reforça a mensagem de que os 30.000 detidos e desaparecidos estão “presentes, agora e sempre”, e que a luta por justiça e verdade é um compromisso contínuo para a sociedade argentina.
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