A diplomacia entre Brasil e Estados Unidos enfrenta um novo ponto de atrito após a recente indicação de Daniel Perez como embaixador americano em Brasília por Donald Trump e Marco Rubio. O anúncio, feito sem a prévia concessão do agrément pelo governo brasileiro, é considerado uma grave quebra de protocolo, sinalizando uma potencial má vontade e turbulência nas relações bilaterais, especialmente em um cenário político global já complexo.
A embaixada americana em Brasília permaneceu sem um titular por mais de um ano, um período incomum que já denotava uma certa despriorização da relação. A escolha de Perez, um deputado estadual da Flórida de 38 anos e filho de cubanos, assim como o secretário de Estado Marco Rubio, adiciona uma camada de particularidade à situação. Contudo, o cerne da questão reside na desconsideração de uma formalidade diplomática essencial, que pode ter implicações significativas para a confiança e a cooperação entre os dois países.
O Protocolo do Agrément e a Quebra da Cortesia
O agrément é uma formalidade crucial no direito internacional, representando a aprovação de um Estado receptor ao nome proposto por um Estado emissor para ser seu chefe de missão diplomática. É um ato de cortesia e respeito à soberania, garantindo que o embaixador indicado seja uma figura bem-vinda e capaz de exercer suas funções de forma eficaz no país anfitrião. Sua concessão é um passo fundamental antes de qualquer anúncio público.
Ao anunciar a indicação de Perez antes que o governo brasileiro tivesse concedido o agrément, Trump e Rubio desrespeitaram abertamente esse protocolo. Embora possa parecer um detalhe burocrático, essa atitude é interpretada como um sinal de desconsideração pelo Itamaraty e pelo Estado brasileiro. Em um ambiente diplomático, tais gestos carregam peso e podem minar a base de confiança necessária para o bom andamento das relações.
Precedentes Históricos de Desafios Diplomáticos
A história da diplomacia entre nações está repleta de episódios onde a quebra de protocolos gerou atritos. Nos anos 1960, por exemplo, o então presidente francês Charles de Gaulle, irritado com o governo de João Goulart, engavetou o pedido de agrément para o embaixador brasileiro Vasco Leitão da Cunha. O motivo foi justamente o anúncio prévio da indicação pelo Brasil, sem a comunicação formal à França. Leitão da Cunha acabou sendo realocado para Moscou.
Mais recentemente, em 2022, a Argentina protagonizou um incidente similar. Após a saída do embaixador Daniel Scioli para assumir um ministério, a Casa Rosada anunciou seu retorno à embaixada em Brasília no mesmo dia de sua demissão, sem consultar o Itamaraty. Naquela ocasião, os presidentes sequer se falavam, mas o então chanceler brasileiro, Carlos Alberto França, sugeriu ao presidente Bolsonaro que relevasse a grosseria para evitar uma crise maior, e Scioli pôde retornar.
Relações Brasil-EUA: Entre Declarações e Atos
A atual situação contrasta com a recente declaração do presidente Lula, que se referiu ao “sucesso da minha visita ao Trump”. Se essa percepção de sucesso se mantiver, a nova “grosseria” diplomática pode indicar que as relações entre Brasil e Estados Unidos ainda passarão por turbulências. A figura do embaixador é vital para a comunicação e a construção de pontes entre governos, e um início de mandato marcado por desrespeito protocolar pode dificultar esse processo.
A ação dos EUA, ao mostrar a “faca” antes mesmo do esgotamento de um prazo combinado, sugere uma postura assertiva e, para alguns, unilateral. Isso levanta questões sobre o futuro da parceria bilateral, especialmente considerando a possibilidade de um retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e o impacto que sua política externa pode ter sobre o Brasil.
Divergências Subjacentes: Corrupção e Perdões
Além da questão protocolar, o artigo original aponta para outras tensões subjacentes na relação. O governo americano, por exemplo, viu um “incentivo à corrupção” na anulação de todas as provas oriundas do acordo de leniência da Odebrecht pelo ministro Dias Toffoli. Essa percepção dos EUA pode influenciar a forma como enxergam a governança e o combate à corrupção no Brasil.
No entanto, o texto faz um contraponto importante: por mais “extravagantes” que sejam as decisões de Toffoli em casos de “delinquentes do andar de cima”, o ministro baseou-se em argumentos jurídicos. Essa base legal difere fundamentalmente da “máquina de perdões” de Donald Trump, que já concedeu indultos a figuras controversas, como um governador que tentou vender uma cadeira no Senado ou o financista Michael Milken, que pagou uma multa de 600 milhões de dólares e cumpriu apenas 22 meses de uma pena de dez anos de prisão. Como repetia o professor Delfim Netto, “dois erros não fazem um acerto”, ressaltando que a falha de um lado não justifica a do outro.
Acompanhar de perto os desdobramentos dessa indicação e as nuances da diplomacia Brasil EUA é fundamental para entender o cenário geopolítico e seus impactos. Para se manter informado com análises aprofundadas e contextualizadas, continue acompanhando o Diário Global, seu portal de notícias comprometido com a informação relevante e de qualidade.
