A complexa dinâmica entre a discriminação de gênero no mercado de trabalho e as escolhas pessoais das mulheres é um tema central no debate contemporâneo sobre equidade e desenvolvimento profissional. Em um artigo de opinião publicado em 30 de junho de 2026, a economista Inez de Barros Lisboa, COO e sócia da Mainú Capital, trouxe à tona essa dualidade, entrelaçando sua experiência pessoal com as análises da Nobel de Economia Claudia Goldin para desmistificar a ideia de que é possível “ter tudo” sem custos.
discriminação: cenário e impactos
Lisboa, que também foi sócia e COO da Lumina Capital Management, argumenta que, embora a discriminação seja uma realidade inegável, as decisões individuais das mulheres, especialmente em relação à maternidade, impõem “pedágios” significativos em suas trajetórias. A discussão transcende a simples constatação do preconceito, aprofundando-se nos sacrifícios e nas renúncias que moldam as carreiras femininas.
O legado feminino e a busca por liberdade
A narrativa de Inez de Barros Lisboa é enriquecida por um panorama geracional de mulheres em sua família, que, cada uma a seu modo, desafiaram as convenções de suas épocas. Sua bisavó, Alicinha, é descrita como uma mulher “livre demais para o seu tempo”, que se separou nos anos 1950 e buscou na vida privada uma saída para problemas públicos, arcando com o custo de sua liberdade.
A avó Maricota, por sua vez, transmitiu a mensagem de que “você pode tudo”, um ideal que a autora carregou até confrontar a realidade da conciliação. Idalina, a avó de Maricota, encontrou prazer na literatura em uma época que não o admitia plenamente, enquanto sua filha, Maria Inez, adiou a maternidade e assumiu uma postura intelectual e liberal, vista como elogio por ela, mas como defeito por outros.
Essas histórias familiares servem como um pano de fundo para ilustrar como as mulheres, ao longo das décadas, fizeram escolhas que as afastaram do roteiro esperado, pagando um preço por sua autonomia e por suas paixões, seja na arte, na vida pessoal ou na carreira.
A penalidade da maternidade e os “greedy jobs”
Um dos pilares da análise de Lisboa é a pesquisa de Claudia Goldin, laureada com o Nobel de Economia em 2023. Goldin demonstrou que, a partir dos anos 1970, as mulheres passaram a investir massivamente em educação e a associar sua identidade à carreira, alcançando produtividade equivalente à dos homens ao sair da universidade. Contudo, a disparidade salarial persiste, com mulheres recebendo cerca de 0,77 dólar para cada dólar masculino, uma diferença que se acentua significativamente após o nascimento dos filhos.
Essa “penalidade da maternidade” é ainda mais pronunciada nos chamados “greedy jobs” – cargos que exigem disponibilidade contínua e flexibilidade total, recompensando aqueles que podem dedicar-se integralmente. A própria Inez de Barros Lisboa relata ter recusado a licença-maternidade em suas três gestações, impulsionada pelo desejo de não abdicar da carreira, mas confrontada com o desafio de gerenciar uma “segunda operação” paralela à vida profissional.
A economista destaca que o mercado de trabalho tende a valorizar o tempo dedicado ao trabalho pago, ignorando ou subestimando o tempo e a energia despendidos no cuidado familiar. Se uma babá é contratada, o custo aparece nas estatísticas de renda; se a mãe assume o cuidado, essa dedicação não é mensurada nem remunerada, criando uma invisibilidade econômica para o trabalho doméstico e parental.
Conciliação: um equilíbrio de trade-offs
No ambiente corporativo atual, as restrições e os dilemas para as mulheres permanecem evidentes. Lisboa aponta para as “decisões pequenas e repetidas” que se acumulam: aceitar uma reunião noturna para manter o ritmo ou preservar a rotina dos filhos; viajar a trabalho de última hora para demonstrar comprometimento ou manter a previsibilidade em casa. No curto prazo, cada escolha parece pontual, mas, com o tempo, elas se transformam em reputação, bônus e oportunidades de promoção.
O discurso contemporâneo muitas vezes promove uma ideia de liberdade como soma, sugerindo que é possível empilhar desempenho profissional e dedicação familiar sem que haja um impacto no tempo, na energia e na vida pessoal. No entanto, como a autora ressalta, os recursos são finitos. Conciliar, portanto, não é ter tudo, mas sim explicitar os trade-offs, priorizar e estar ciente do custo do que ficou de fora.
Para Inez de Barros Lisboa, sua percepção foi clara: para ser a profissional que desejava, precisaria renunciar a momentos importantes da maternidade, embora não à maternidade em si. As mulheres de sua família – Idalina, Alicinha, Maria Inez e Maricota – viveram suas liberdades e fizeram suas escolhas, mas não tiveram tudo. Elas compreenderam o preço de suas decisões, renunciaram a muito e construíram outras tantas realidades.
A ética do trabalho e a necessidade de pagar a conta, como sua avó Maricota ensinou, são lições que ressoam. Conciliar é, em última instância, reconhecer que a conta não desaparece; ela apenas muda de lugar, exigindo uma constante reavaliação de quem se quer ser em cada uma das versões da vida.
Para aprofundar-se nos estudos de Claudia Goldin sobre o mercado de trabalho e as mulheres, visite o site oficial do Prêmio Nobel.
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