Às vésperas do pleito eleitoral deste domingo (4), o debate público brasileiro parece ter deixado de lado um dos pilares mais estratégicos da política externa nacional: a relação com a China. Enquanto o noticiário se concentrou em temas domésticos, como o caso Banco Master e as tensões institucionais com o STF, a influência de Pequim permaneceu operando nos bastidores, servindo como munição retórica para os candidatos, mas escondendo desafios geopolíticos que o próximo governo não poderá ignorar.
A ilusão do equilíbrio entre potências
Tanto o presidente Lula quanto o candidato Flávio Bolsonaro têm adotado discursos que buscam, ao menos na superfície, evitar uma escolha definitiva entre Pequim e Washington. Enquanto Flávio Bolsonaro, em atos de campanha como o realizado em Natal no dia 21, criticou duramente a postura do atual governo — acusando-o de “lamber bota da China” —, ele simultaneamente prometeu manter uma relação “pragmática economicamente” com o país asiático.
Lula, por sua vez, tem apostado na valorização da parceria comercial. Em entrevista ao Flow Podcast, o petista destacou a “ousadia dos investidores chineses” na América Latina. Contudo, essa estratégia de neutralidade, que funcionou bem enquanto a balança comercial se resumia à exportação de commodities como soja e minério de ferro, enfrenta agora um cenário de esgotamento. A pressão por um alinhamento mais claro tende a crescer à medida que a disputa global por tecnologia e recursos estratégicos se intensifica.
O novo campo de batalha: minerais críticos
O ponto de inflexão dessa relação reside nos minerais críticos, como as terras raras, essenciais para a fabricação de motores elétricos e equipamentos de defesa. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses elementos, atrás apenas da China, o que transformou o estado de Goiás em um laboratório de disputas geopolíticas. Em abril, a empresa americana USA Rare Earth adquiriu a mina de Serra Verde, com um aporte adicional de US$ 750 milhões do Pentágono em agosto, sinalizando o interesse estratégico dos Estados Unidos em reduzir a dependência do refino chinês.
A presença chinesa, contudo, é consolidada. A empresa CMOC opera no setor de nióbio em Goiás desde 2016. Enquanto o governo Lula busca implementar uma política de processamento local do minério, atraindo sócios de diversas origens e criando um conselho presidencial para avaliar investimentos estrangeiros estratégicos, a resistência de Washington permanece. Em janeiro, o governo americano chegou a solicitar ao Itamaraty a revisão da venda de minas de níquel da Anglo American para a chinesa MMG.
Desafios imediatos para o próximo governo
O vencedor das urnas encontrará uma agenda de política externa complexa e sem margem para hesitações. Questões como a cota de exportação de carne bovina para a China, que já atingiu o limite em 2026, exigirão negociações urgentes para evitar sobretaxas de 55% sobre o excedente. Além disso, a presidência de Xi Jinping no Brics em 2027 coloca o bloco no centro da agenda diplomática, um tema que, curiosamente, esteve ausente do plano de gestão de Flávio Bolsonaro.
Se o cenário for de vitória para a oposição, o agronegócio pode manter o fluxo comercial, mas a cooperação em áreas de alta tecnologia e minerais raros deve sofrer alterações drásticas em direção a uma parceria com os EUA. Caso a reeleição de Lula se confirme, a pressão de Washington pelo “tarifaço” e pelo alinhamento estratégico tende a ser o principal teste para a autonomia da diplomacia brasileira. O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos desta disputa e seu impacto direto na economia e na soberania nacional. Continue conosco para análises aprofundadas sobre os rumos do Brasil no cenário internacional.
