A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) voltou ao centro das discussões sobre saúde pública após a recente morte do influenciador e piloto Lito Sousa, ocorrida em 1º de outubro de 2026, apenas 41 dias após o diagnóstico. A condição, classificada como uma patologia neurodegenerativa rara e sem cura, impõe desafios significativos tanto para o sistema de saúde quanto para as famílias dos pacientes devido à sua progressão rápida e severa.
Panorama epidemiológico e histórico de notificações
Dados oficiais indicam que, entre 2005 e 2021, o Brasil registrou 547 casos confirmados da doença. O monitoramento ganhou maior rigor a partir de 2005, quando a DCJ passou a integrar a lista de notificação compulsória no país. Nesse intervalo de 17 anos, o Ministério da Saúde contabilizou 1.576 notificações de casos suspeitos, sendo que 29% foram descartados e cerca de 36% permaneceram sem uma classificação final conclusiva.
Embora o Ministério da Saúde reporte um acumulado de aproximadamente 2.500 notificações de casos suspeitos até agosto de 2026, a pasta não detalhou o número exato de confirmações para o período entre 2021 e 2026. Entre os registros consolidados até 2021, o estado de São Paulo liderou as estatísticas com 202 casos, seguido por Minas Gerais, com 57, e Paraná, com 44.
Perfil dos pacientes e características da doença
A análise dos dados coletados até 2021 revela que a doença atinge predominantemente o público idoso. A faixa etária entre 55 e 74 anos concentrou 60,2% das notificações, com uma idade média de 66 anos. Em termos de distribuição por sexo, as mulheres representaram 53,6% dos casos, enquanto os homens totalizaram 46,3%. Entre as notificações totais, 18,4% possuíam registro de óbito diretamente atribuído à patologia.
A DCJ é causada por uma proteína priônica anormal que se acumula no cérebro, levando à degeneração progressiva do tecido nervoso. Por ser uma enfermidade que mimetiza sintomas de outras condições neurológicas, o diagnóstico exige um processo rigoroso de exclusão.
Desafios no diagnóstico e manejo clínico
O diagnóstico da DCJ é complexo e baseia-se na combinação de avaliação clínica, exames de imagem como ressonância magnética, eletroencefalograma e a análise do líquor. Segundo o neurologista Renato Gama, professor da Afya Educação Médica, é fundamental descartar outras patologias tratáveis, como encefalites virais ou autoimunes e formas específicas de demência.
Um dos avanços na investigação é o exame RT-QuIC, capaz de identificar a atividade da proteína priônica anormal no líquor. Embora esse método permita estabelecer um diagnóstico provável com alto grau de confiança ainda em vida, a confirmação definitiva, do ponto de vista neuropatológico, ainda depende da análise do tecido cerebral após o falecimento do paciente.
Atualmente, não existe tratamento capaz de deter a evolução da doença. A abordagem médica concentra-se exclusivamente no controle de sintomas e em medidas de suporte, buscando oferecer dignidade e qualidade de vida ao paciente durante o curso da enfermidade.
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