O jornalismo brasileiro se despede de uma de suas figuras mais emblemáticas. Ebrahim Ramadan, jornalista que comandou o icônico Notícias Populares (NP) por quase duas décadas, faleceu nesta quarta-feira (1º), em São Paulo, aos 91 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas seu legado como editor e mestre na arte de comunicar com o grande público permanece indelével na história da imprensa nacional.
Ramadan foi muito mais do que um editor; ele foi um visionário que soube ler e moldar o pulso da sociedade brasileira, transformando um periódico popular em um fenômeno de vendas e um espelho de seu tempo. Sua gestão no NP, entre 1972 e 1990, é lembrada por uma redefinição audaciosa da linha editorial, que não apenas aumentou a vendagem, mas também abriu espaço para vozes e temas até então marginalizados.
Uma trajetória dedicada ao jornalismo popular
Antes de assumir a direção do Notícias Populares, Ebrahim Ramadan construiu uma sólida carreira em veículos de peso. Ele passou pela Folha de S.Paulo, pela Folha da Tarde e pelo Jornal do Brasil, acumulando experiência e refinando sua percepção sobre o que movia o leitor. Foi na Folha da Tarde que sua habilidade chamou a atenção de Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), então publisher da Folha.
Escrevendo crônicas sob o pseudônimo Luiz Lima, Ramadan conquistou um público fiel. A popularidade de suas colunas era tamanha que, quando ele cessou suas contribuições, os leitores organizaram um abaixo-assinado pedindo seu retorno. Esse clamor popular foi o catalisador para o convite de Frias de Oliveira para que Ramadan assumisse o Notícias Populares em 1972, um desafio que ele aceitou e transformou em um marco.
A revolução editorial no Notícias Populares
Ao chegar ao Notícias Populares, Ebrahim Ramadan implementou uma verdadeira revolução. Ele compreendeu a necessidade de um jornal que falasse diretamente com o povo, sem rodeios, mas com inteligência e sensibilidade. O periódico, sob sua batuta, se tornou um caldeirão de informações diversas, que iam do insólito ao cotidiano, do espiritual ao político.
A pluralidade foi uma das marcas registradas de sua gestão. O NP abriu suas páginas para personalidades de diferentes espectros, como o médium Chico Xavier, que oferecia reflexões espirituais, e o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que mais tarde se tornaria presidente do Brasil. Essa capacidade de dar voz a segmentos da sociedade que raramente eram ouvidos por outras publicações consolidou o jornal como um espaço democrático e relevante.
Um dos episódios mais célebres da era Ramadan foi a série do Bebê-Diabo, em 1975. A história, que narrava o nascimento de um recém-nascido em um hospital de São Bernardo do Campo (SP) com características físicas incomuns, ganhou tons sobrenaturais e virou manchete por dias a fio, impulsionando as vendas a níveis estratosféricos e tornando-se um fenômeno cultural da época. A Folha de S.Paulo, parte do mesmo grupo, acompanhou de perto o sucesso editorial.
Legado e reconhecimento de um mestre
Ebrahim Ramadan é unanimemente descrito por seus colegas de trabalho como um “mestre e professor”. Sua profunda erudição, com vasto conhecimento em textos clássicos de literatura e filosofia, aliada a uma perspectiva humanista, permeava seu fazer jornalístico. Ele não apenas editava notícias, mas também formava profissionais.
Formado pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) em 1971, Ramadan também dedicou parte de sua vida ao ensino, atuando como professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Além de sua carreira na imprensa e na academia, ele foi um poeta prolífico, autor de livros como “O Beijo dos Neurônios” (1980), “Vida Comprometida” (1982) e “O Beijo da Chuva na Aurora Azul” (1989), revelando a sensibilidade por trás do editor de manchetes impactantes.
O humanismo por trás das manchetes
Para Antonio Marcos Soldera, 68, que foi repórter de polícia do NP entre 1983 e 1989, Ramadan tinha a capacidade ímpar de ensinar a fazer jornalismo popular com cumplicidade e respeito aos leitores. “Transformou o economês dos grandes jornais em uma coisa palatável para o povo”, afirmou Soldera, destacando a habilidade de Ramadan em desmistificar temas complexos para o público geral.
A visão humanista de Ramadan também se manifestou na abertura do Notícias Populares para temas sociais importantes. O jornal, por exemplo, teve uma coluna chamada Espaço Gay, assinada pelo personagem Julian Gray, pseudônimo da jornalista Joana Rodrig. Essa iniciativa, em uma época com menos discussões sobre diversidade, demonstrava o compromisso do editor em dar voz e visibilidade a comunidades e pautas que muitas vezes eram ignoradas pela grande mídia.
A partida de Ebrahim Ramadan deixa uma lacuna no jornalismo brasileiro, mas sua influência e o modelo de comunicação que ele ajudou a construir continuam a inspirar novas gerações. O Diário Global se solidariza com familiares e amigos, e convida você, leitor, a continuar acompanhando nossas reportagens para se manter informado sobre os acontecimentos mais relevantes do Brasil e do mundo, com a mesma profundidade e compromisso com a informação de qualidade.
