20.abr.2024/Reuters

Nações Unidas alertam para escalada global e perigo das novas drogas sintéticas

Saúde

Um relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) acende um alerta global sobre o consumo de drogas, destacando um crescimento alarmante e sem precedentes de novas substâncias sintéticas. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) revelou, em seu Relatório Mundial sobre Drogas de 2026, que cerca de 331 milhões de pessoas utilizaram alguma substância psicoativa em 2024, o que corresponde a 6,2% da população mundial com idades entre 15 e 64 anos. Esse dado representa um aumento significativo em comparação com os 5,2% registrados uma década antes, em 2014, evidenciando uma expansão preocupante no cenário do consumo global.

Apesar de a maconha (cannabis) manter sua posição como a droga mais popular em 2024, seguida por opioides, anfetaminas, cocaína e ecstasy, a grande preocupação reside na crescente acessibilidade e proliferação de opioides sintéticos. Substâncias como fentanil, nitazenos e orfinas, muitas vezes procuradas como substitutos da heroína, estão se tornando cada vez mais comuns, apresentando riscos elevados à saúde pública e à segurança global.

A ascensão das drogas sintéticas e seus riscos

A diretora do UNODC, Mónica Juma, expressou profunda preocupação com a situação. Em um comunicado, ela afirmou: “Observamos um aumento sem precedentes de novos tipos de drogas no mercado e, o que é preocupante, algumas são mais potentes ou perigosas do que antes”. Essa observação sublinha a natureza dinâmica e perigosa do mercado de drogas atual, onde a inovação ilícita busca constantemente contornar as regulamentações e evitar a detecção por parte das autoridades.

Os produtores de drogas têm investido na criação de novas substâncias sintéticas, uma estratégia que visa burlar as leis existentes e dificultar a fiscalização. As apreensões de narcóticos em 2024 são um testemunho dessa tendência, revelando uma diversidade de tipos de drogas cinco vezes maior do que a registrada antes do ano 2000. O relatório do UNODC detalha que o número de Novas Substâncias Psicoativas (NSP) em circulação atingiu 755 em 2024, com 118 dessas substâncias sendo relatadas pela primeira vez naquele ano.

Impacto da proibição do ópio e a busca por alternativas

O mercado global de ópio e heroína tem sido profundamente impactado pela proibição do cultivo de papoula imposta pelo regime talibã no Afeganistão, em 2022. Essa medida drástica, embora focada na erradicação de culturas ilícitas, teve uma consequência não intencional: impulsionou os traficantes a buscarem alternativas sintéticas, como o fentanil. A mudança dos opioides de origem vegetal para os sintéticos pode representar uma alteração permanente no mercado mundial de opioides, com profundas repercussões na forma como essas drogas são consumidas e nos danos que provocam à saúde dos usuários.

Essa transição é particularmente preocupante devido à potência e ao risco de overdose associados a muitos opioides sintéticos, como o fentanil, que é significativamente mais potente que a morfina e a heroína. A facilidade de produção e transporte dessas substâncias, que não dependem de grandes áreas de cultivo, as torna atraentes para as redes de tráfico, ampliando seu alcance global e a complexidade do combate ao narcotráfico.

Expansão de outros mercados ilícitos

Além dos opioides sintéticos, o UNODC também observa o surgimento de novos mercados para a metanfetamina. Essa droga, produzida em grande parte em Mianmar, tem expandido sua presença para regiões como a América do Norte, o oeste e sul da África e o sudoeste da Ásia, indicando uma diversificação geográfica das rotas de tráfico e consumo. A metanfetamina, conhecida por seus efeitos estimulantes intensos e altamente viciantes, representa um desafio adicional para as autoridades de saúde e segurança pública em diversas partes do mundo.

O consumo de maconha também continua em ascensão, impulsionado, em parte, pela legalização e descriminalização em algumas jurisdições. O número de consumidores aumentou 40% entre 2014 e 2024, com quase 5% da população mundial na faixa etária de 15 a 64 anos tendo consumido a substância em 2024. Embora a legalização seja frequentemente justificada por argumentos de saúde pública e controle, o UNODC monitora de perto seus impactos no padrão de consumo.

A produção de cocaína, por sua vez, quadruplicou na última década. Traficantes intensificaram o fornecimento tanto para mercados já estabelecidos na Europa, nas Américas e na Oceania, quanto para novos mercados emergentes na África e na Ásia. Essa expansão demonstra a capacidade das redes criminosas de se adaptarem e explorarem novas oportunidades, consolidando a cocaína como uma das drogas ilícitas mais comercializadas globalmente.

Desafios e perspectivas futuras

O cenário apresentado pelo UNODC exige uma resposta coordenada e multifacetada da comunidade internacional. O combate às drogas sintéticas e à expansão dos mercados ilícitos passa por estratégias de fiscalização mais eficazes, cooperação internacional aprimorada e, crucialmente, investimentos em prevenção, tratamento e redução de danos. A complexidade do problema, com a rápida evolução das substâncias e das rotas de tráfico, demanda uma abordagem flexível e baseada em evidências para proteger a saúde pública e a segurança global.

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