Após quatro anos à frente da Colômbia, o primeiro presidente de esquerda do país, Gustavo Petro, deixa a Casa de Nariño nesta sexta-feira (7) para dar lugar ao ultradireitista Abelardo de la Espriella, vencedor das recentes eleições de junho. Apesar de não ter conseguido eleger um sucessor e de enfrentar reveses em sua ambiciosa agenda de reformas, Petro encerra seu mandato com um legado notável: a consolidação da esquerda no cenário político colombiano, um feito significativo em uma nação historicamente marcada por conflitos e alinhamento com os Estados Unidos.
A ascensão de Petro ao poder em 2022 já havia sinalizado uma mudança profunda na política colombiana. Por décadas, o país foi dominado por forças de direita, como evidenciado pelos dois mandatos de Álvaro Uribe (2002-2010) e a vitória expressiva de Juan Manuel Santos em 2010. Enquanto a América do Sul vivenciava a chamada “onda rosa” de governos progressistas nos anos 2000, a Colômbia permanecia uma exceção. Agora, em um contexto regional de “onda azul” — a ascensão de governos de direita —, a Colômbia se alinha à tendência, mas com uma esquerda interna mais robusta do que nunca.
A Consolidação da Esquerda no Congresso
Um dos indicadores mais claros da consolidação da esquerda colombiana é o desempenho do Pacto Histórico, partido de Petro, nas eleições legislativas de março deste ano. A sigla foi a que mais cresceu no Congresso, elegendo 25 senadores e 42 deputados. Esse resultado representa um aumento de cinco representantes no Senado, compensando perdas de outra legenda de esquerda, e 15 a mais na Câmara dos Representantes.
Em termos percentuais, a bancada do Pacto Histórico agora ocupa 23% dos assentos da Câmara e 24% do Senado. Embora esses números não configurem uma maioria e a direita permaneça fragmentada, a representatividade é expressiva. Para contextualizar, nos anos 2000, a soma de todos os partidos de esquerda no Congresso não atingia 20%. Esse crescimento demonstra uma base eleitoral e política mais sólida para as ideias progressistas no país.
A Polarização Eleitoral e a Vitória Apertada de Espriella
A eleição que levou Abelardo de la Espriella ao poder foi a mais apertada da história da Colômbia, refletindo a intensa polarização que o país atravessa. Espriella surpreendeu analistas ao liderar o primeiro turno por quase três pontos percentuais, mas sua vitória no segundo turno foi por uma margem de menos de um ponto percentual. O apoio do ex-presidente americano Donald Trump ao candidato ultradireitista adicionou uma camada internacional à disputa.
O candidato apadrinhado por Petro, Iván Cepeda, chegou muito perto da vitória, evidenciando a força da base petrista. A diferença ínfima contrasta drasticamente com eleições anteriores, como a de 2006, quando Uribe venceu seu opositor por mais de 40 pontos percentuais, ou a de 2010, quando Santos obteve uma vantagem de mais de 42 pontos percentuais. Essa disputa acirrada sugere que, apesar da alternância de poder, a Colômbia permanece dividida entre visões políticas distintas.
Reformas em Xeque: Avanços e Obstáculos na Gestão Petro
Apesar da consolidação política, a agenda de reformas de Petro enfrentou consideráveis desafios. O presidente conseguiu aprovar alterações importantes nos sistemas tributário e trabalhista, que buscaram redistribuir renda e melhorar as condições dos trabalhadores. No entanto, sua ambiciosa reforma na saúde, um dos pilares de sua plataforma, não conseguiu avançar e ficou no caminho, enfrentando forte resistência no Congresso e na sociedade civil.
A dificuldade em emplacar todas as suas propostas, mesmo com um crescimento da bancada de esquerda, ilustra os entraves institucionais e a complexidade da política colombiana. A fragmentação da direita no Congresso, embora não unida, ainda representou um obstáculo significativo para a formação de uma maioria governista. O cenário de polarização, tanto nas urnas quanto no parlamento, será um desafio adicional para o novo presidente Espriella, que terá que navegar em um ambiente político com uma oposição de esquerda mais organizada e influente.
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