Em uma noite tempestuosa de 2023, sob o manto de uma chuva torrencial e um mar revolto, um frágil barco de madeira rasgava as águas em uma fuga audaciosa da Coreia do Norte. A bordo, nove pessoas, incluindo duas crianças pequenas e uma mulher grávida de seis meses, arriscavam suas vidas em busca de um futuro que lhes era negado em sua terra natal. Liderada pelos irmãos Kim Il-hyeok e Yi-hyeok, a família protagonizou uma das raras deserções bem-sucedidas do regime de Kim Jong-un durante o rigoroso lockdown imposto pela pandemia de Covid-19.
A travessia não foi apenas contra as ondas e o vento. Eles escaparam de um navio de patrulha norte-coreano, cruzando a fronteira marítima mais vigiada do mundo. A chegada às águas sul-coreanas, contudo, não significou o fim imediato do perigo. Um navio de guerra da Marinha da Coreia do Sul interceptou a embarcação, com atiradores de elite apontando miras a laser para os homens, em um tenso interrogatório que só foi aliviado com a aparição das crianças, provando que eram civis em busca de refúgio.
A travessia sob o manto da tempestade
A cena da interceptação foi dramática. Os pontos vermelhos dos lasers fixados nos peitos dos três homens adultos no barco de madeira criavam um clima de pânico. A voz que ecoava do alto-falante questionava: “Vocês estão perdidos? Problemas no motor?” A resposta desesperada dos norte-coreanos – “Por favor, nos ajudem. Estamos desertando” – marcou o ponto de virada. Somente quando as duas crianças, uma menina de 5 anos e um menino de 3, foram erguidas do porão apertado, os pontos vermelhos se dissiparam, e a tensão começou a ceder.
A família, unida por laços de sangue e casamento, era composta pelos irmãos Kim Il-hyeok e Yi-hyeok, ambos na casa dos 30 anos, sua mãe, a companheira grávida de Il-hyeok, a esposa de Yi-hyeok, seus dois filhos, a sogra e o cunhado deste último. Eles representam um dos poucos grupos que conseguiram escapar do isolamento quase total imposto pelo regime de Pyongyang durante a pandemia, oferecendo percepções valiosas sobre a vida em uma nação hermeticamente fechada.
As raízes da desesperança: vida sob o regime de Kim Jong-un
A decisão de desertar não foi impulsiva, mas amadureceu ao longo de anos de privação e desilusão. A semente foi plantada na mente dos irmãos por seu pai, um oficial de segurança ferroviária, que testemunhou a devastação da fome no final dos anos 1990. Seus relatos sombrios de crianças mortas de inanição e congeladas, jogadas em caminhões como peixes, corroeram sua fé na classe dominante. Ele foi o primeiro a sonhar com a liberdade, apontando para as luzes da Coreia do Sul e dizendo aos filhos: “É para lá que devemos ir. Para viver e andar de cabeça erguida.”
Yu-mi, esposa de Yi-hyeok, que morava na cidade costeira de Kangryong, também alimentava essa esperança. De lá, ela podia ver os aviões decolando do Aeroporto Internacional de Incheon, uma visão cintilante de possibilidade, mas inatingível para os norte-coreanos. “Nosso país parecia uma prisão sem grades”, relatou Yu-mi, expressando o sentimento de isolamento e privação de liberdade que permeia a sociedade norte-coreana.
O impacto da pandemia e a busca pela liberdade
A morte inesperada do pai em 2014 pareceu adiar o sonho da fuga. No entanto, os irmãos continuaram a se preparar. Yi-hyeok, o mais novo e estável, transferiu-se para Kangryong, onde aprendeu navegação, mapeou postos de guarda e cultivou laços com autoridades. Ele se tornou um mergulhador, trabalhando na colheita de frutos do mar, e chegou a operar três embarcações para uma empresa de pesca militar, ganhando bem com a presença de compradores chineses, apesar das sanções da ONU.
Il-hyeok, o irmão mais velho, era um “encrenqueiro” autoproclamado, navegando na economia paralela, subornando e manipulando o sistema para sobreviver. Abatia animais, administrava uma mina de ouro e revendia arroz roubado. Ambos, à sua maneira, se desiludiram com o sistema. A pandemia de Covid-19, contudo, foi o catalisador final. O regime de Kim Jong-un impôs um dos lockdowns mais severos do mundo, fechando o acesso ao mar com arame farpado e guardas armados. Os barcos de Yi-hyeok enferrujaram, suas dívidas aumentaram, e a hipocrisia do regime se tornou insuportável: “As elites ainda comiam o que queriam”, disse Yu-mi, enquanto execuções públicas se tornavam mais frequentes, visando aqueles acusados de crimes menores. Foi nesse cenário de desespero e injustiça que a família decidiu que era hora de arriscar tudo pela liberdade.
Um novo horizonte: a chegada à Coreia do Sul
Apesar dos desafios que muitos desertores enfrentam ao se adaptar à vida na Coreia do Sul, a família Kim reforça a convicção de que a decisão de deixar a ditadura de Kim Jong-un foi a correta. A história deles é um testemunho da resiliência humana e do desejo inabalável por liberdade, ecoando a voz de Yu-mi: “Naquela noite, cruzamos de um mar de escuridão para um mar de liberdade.”
Para mais informações sobre a situação na Coreia do Norte e as histórias de desertores, visite o site da ONU sobre direitos humanos.
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