A lealdade política ao então presidente Jair Bolsonaro foi o principal fator que afastou milhões de brasileiros da vacinação contra a Covid-19, superando influências como religião ou nível educacional. Essa é a conclusão de uma pesquisa inédita, publicada na revista científica Vaccine: X (Elsevier), que utilizou técnicas de inteligência artificial para analisar dados de mais de 2.000 brasileiros entrevistados em 2021, no auge da campanha de imunização.
O estudo, que aplica o aprendizado de máquina para desvendar as raízes da hesitação vacinal no Brasil, revela um cenário complexo onde a adesão à figura política de Bolsonaro se mostrou mais determinante do que qualquer outro aspecto sociodemográfico na decisão de aceitar ou recusar o imunizante. Os resultados apontam para a necessidade de repensar as estratégias de comunicação em saúde pública, especialmente em contextos de forte polarização.
Fidelidade política e a hesitação vacinal no Brasil
A pesquisa demonstrou uma correlação direta entre o grau de fidelidade a Jair Bolsonaro e a taxa de vacinação. Eleitores que declararam votar exclusivamente no ex-presidente, mesmo rejeitando outros candidatos do espectro conservador, apresentaram uma taxa de vacinação de apenas 65%. Em contraste, entre aqueles dispostos a considerar outras opções dentro do campo da direita, a adesão vacinal subiu para 71%.
Essa diferença, estatisticamente significativa, sublinha como a lealdade a um líder político que questionava as vacinas se tornou um obstáculo considerável para a saúde pública. A análise sugere que a formação de atitudes em relação à vacinação estava intrinsecamente ligada à intuição e ao alinhamento político, e não a uma avaliação independente de evidências científicas.
Ecossistema de desinformação e crenças falsas
O estudo também identificou um “ecossistema interconectado de crenças falsas” que alimentava a hesitação vacinal. Indivíduos que acreditavam na eficácia do chamado “kit Covid” — um conjunto de medicamentos sem comprovação científica promovido pelo governo federal na época — tendiam a endossar outras teorias conspiratórias sobre as vacinas.
Entre essas crenças, destacavam-se a ideia de que os imunizantes alteravam o DNA, implantavam microchips ou causavam doenças graves como câncer e HIV. Esse padrão reforça a hipótese de que a desinformação operava como parte de uma narrativa coerente para justificar posições estabelecidas por lealdade política.
Perfil sociodemográfico da resistência vacinal
A pesquisa traçou um perfil detalhado dos grupos com maior resistência à vacinação. Os evangélicos se destacaram, com cerca de 40% declarando recusa ou hesitação, a maior taxa entre todos os segmentos religiosos analisados. Esse índice foi quase o dobro da taxa registrada entre católicos (22%) e superior à de ateus (36%) e agnósticos (34%).
A faixa etária também influenciou, com os mais jovens, entre 16 e 28 anos, apresentando uma resistência elevada de 36%. A adesão cresceu progressivamente com a idade, atingindo o menor nível de recusa (23%) entre os maiores de 54 anos. Na escolaridade, o ensino fundamental registrou recusa de cerca de 32%, caindo para 22% entre universitários. Curiosamente, analfabetos tiveram uma das menores taxas de recusa (21%), atribuída à atuação de agentes comunitários de saúde.
A variação na dimensão econômica não foi drástica em outras faixas de renda, com a hesitação permanecendo próxima de 23% mesmo entre os mais abastados. Isso sugere que fatores socioeconômicos, embora presentes, não foram os mais determinantes para a resistência vacinal.
Implicações para futuras campanhas de saúde pública
A principal conclusão do estudo é que, se a recusa vacinal tem raízes políticas profundas, as campanhas de vacinação futuras precisam incorporar essa variável em suas estratégias de comunicação. Não se trata de abandonar a ciência, mas de reconhecer que, em cenários de polarização, a mera apresentação de fatos pode não ser suficiente para mudar comportamentos.
É crucial entender os canais por onde a desinformação se propaga e desenvolver abordagens que considerem o viés político como um elemento chave. A metodologia, disponibilizada publicamente, permite que pesquisadores de outros países apliquem técnicas semelhantes, já que a hesitação vacinal motivada politicamente não é exclusiva do Brasil.
Desafios e novas questões para a pesquisa
A pesquisa, contudo, aponta para algumas limitações e abre caminho para novos questionamentos. Não foi possível determinar se o conservadorismo, por si só, seria um fator relevante caso o ex-presidente Bolsonaro não tivesse adotado uma postura explicitamente antivacina. Da mesma forma, a direção da causalidade permanece incerta: as pessoas se tornaram antivacina por apoiar Bolsonaro, ou passaram a apoiá-lo justamente por já compartilharem dessas posições?
Responder a essas perguntas exigirá investigações futuras. No entanto, ficou claro que, em crises sanitárias, a política pode ser um obstáculo tão significativo quanto a falta de informação — e, em certas circunstâncias, até maior. O artigo original foi publicado no The Conversation e contou com a coautoria de Sylvia Iasulaitis e Leonardo Ribeiro dos Santos. Você pode ler o texto original aqui: The Conversation.
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