Stefano Ortega/NYT

Geração Z nos EUA prioriza bronzeado intenso e negligencia riscos de câncer de pele

Saúde

Uma tendência preocupante tem ganhado força entre a Geração Z nos Estados Unidos: a busca incessante por um bronzeado intenso, muitas vezes em detrimento dos alertas médicos sobre o risco de câncer de pele. Impulsionados por conteúdos em plataformas como TikTok e Instagram, jovens dessa faixa etária demonstram uma surpreendente despreocupação com as consequências a longo prazo da exposição excessiva à radiação ultravioleta.

Apesar de uma crescente conscientização sobre saúde e bem-estar em outras áreas, como alimentação e exercícios, a cultura do bronzeamento parece resistir aos apelos da ciência. Especialistas em dermatologia expressam perplexidade diante dessa atitude, que pode ter raízes tanto na desinformação disseminada online quanto em fatores psicológicos relacionados à percepção de futuro.

A febre do bronzeado e a desconsideração dos perigos

O cenário é ilustrado por casos como o de Makai Wallace, uma jovem de 19 anos de South Jordan, Utah, que viralizou em outubro com um vídeo postado de dentro de uma câmara de bronzeamento. Em sua publicação, Wallace escreveu: “A leoa não se preocupa com ‘câncer de pele’”, apertando os olhos devido à luz ultravioleta. O post, com mais de 71 mil visualizações, gerou forte reação da comunidade médica, incluindo a dermatologista Brooke Jeffy.

Jeffy, que trabalhou em um salão de bronzeamento na adolescência, alertou sobre os perigos: “As câmaras de bronzeamento estão na mesma categoria de agentes cancerígenos que o amianto e o plutônio”, afirmou, destacando que o uso de câmaras antes dos 35 anos aumenta em 75% o risco de desenvolver melanoma. O descaso de Wallace reflete uma atitude comum entre jovens de 18 a 29 anos, muitos dos quais acompanham o índice UV em aplicativos para maximizar a exposição.

Influência digital e a disseminação de mitos

Os “tanfluencers”, como alguns influenciadores se autodenominam nas redes sociais, promovem práticas como o “tanmaxxing” (bronzeamento máximo), utilizando intensificadores de extrato de cenoura ou exibindo marcas de bronzeado e queimaduras solares. Essa cultura digital contribui para uma percepção distorcida dos riscos, como revelado por uma pesquisa da Academia Americana de Dermatologia (AAD).

O estudo, divulgado em 17 de junho de 2026, apontou que apenas 25% dos entrevistados da Geração Z se preocupam em desenvolver câncer de pele ao longo da vida, em comparação com 39% da população geral. Alarmantemente, 20% dos jovens afirmam que ficar bronzeado é mais importante do que prevenir a doença, contra 14% do grupo geral. A desinformação é um fator crucial: TikTok e Instagram são as principais fontes de informação sobre cuidados com a pele para essa geração, e 65% dos jovens se mostram propensos a acreditar em mitos, como a ideia de que protetor solar causa câncer de pele ou que um bronzeado pode prevenir queimaduras.

O alerta dos especialistas e a realidade do câncer de pele

Dermatologistas como Neelam Khan expressam preocupação com a tendência. “Eu esperava que o conceito de bronzeamento tivesse feito parte disso e que se tornasse algo fora de moda. Tudo isso é preocupante, mas o risco muito real de desenvolverem câncer de pele é o que mais preocupa”, disse Khan, observando que a Geração Z geralmente prioriza a saúde em outros aspectos, como sono e hidratação.

O câncer de pele é o tipo mais comum de câncer nos Estados Unidos e, paradoxalmente, um dos mais evitáveis. A Skin Cancer Foundation estima que 1 em cada 5 americanos desenvolverá câncer de pele até os 70 anos, e ter cinco ou mais queimaduras solares dobra o risco de melanoma. A dermatologista Marisa Garshick, de Nova York, ressalta a diferença entre o passado, quando o conhecimento sobre os riscos era limitado, e o presente, onde as informações e medidas de proteção são amplamente acessíveis.

Fatores psicológicos e a percepção de futuro

Além da desinformação, fatores psicológicos podem influenciar a decisão dos jovens. Lindsay Fleming, terapeuta especializada em jovens adultos, sugere que a “sensação reduzida de controle sobre o futuro” pode fazer com que as consequências de longo prazo percam seu peso emocional. A pesquisa da AAD corrobora essa visão, mostrando que 25% dos jovens entrevistados acreditam que vale a pena ter um bronzeado agora, mesmo com efeitos negativos futuros.

Mitos como o de que bronzear o períneo pode aumentar a energia ou equilibrar hormônios também contribuem para a cultura do bronzeamento. A enfermeira dermatológica Ann Frisius observa a contradição: “Todos querem uma ‘glass skin’, mas vão torrar em uma câmara de bronzeamento, o que só faz os poros aumentarem. Todo bronzeado é danoso ao DNA.” A decisão da FDA (Food and Drug Administration) de retirar uma proposta que proibiria o uso de câmaras de bronzeamento por menores de idade também é vista como um fator que não ajuda a reverter essa tendência preocupante.

Para se aprofundar nas diretrizes de proteção solar e saúde da pele, você pode consultar a Academia Americana de Dermatologia.

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