A história do capitalismo, um tema vasto e complexo, ganha uma nova e controversa interpretação na obra Capitalism: A Global History, do historiador Sven Beckert, professor de Harvard. O livro, que se propõe a traçar mil anos de desenvolvimento capitalista sob uma ótica marxista, tem sido objeto de intensa análise e debate no meio acadêmico e jornalístico. Uma crítica detalhada de Brian Domitrovic, por exemplo, lança luz sobre as particularidades da abordagem de Beckert, que pinta o capitalismo como uma força motriz de exploração e maldade, sem trazer nada de bom ao mundo.
A discussão em torno da obra de Beckert não se limita apenas ao seu conteúdo, mas também à sua forma e à posição de seu autor. A reavaliação da história do capitalismo proposta por um acadêmico de uma instituição de prestígio como Harvard ressoa especialmente em um momento em que as discussões sobre desigualdade social, colonialismo e as raízes históricas das estruturas econômicas contemporâneas ganham força em diversas esferas da sociedade.
A Ambição Global e o Peso Acadêmico da Obra
O livro de Sven Beckert impressiona primeiramente por sua escala monumental. Com 1.100 páginas de texto principal, mais 150 páginas de notas finais em fonte minúscula e agradecimentos que se estendem por quase meio capítulo, totalizando mais de 3 mil palavras, a obra pesa cerca de 2,3 quilos. Essa extensão é justificada pelo autor como uma necessidade para abordar a natureza intrinsecamente global do capitalismo, que, segundo ele, só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva mundial, remontando ao ano 1000 d.C.
No entanto, Brian Domitrovic sugere que o tamanho e o alcance do livro podem ser, em parte, um reflexo das capacidades e privilégios acadêmicos do autor. A menção à sua cátedra em Harvard, o financiamento substancial para uma equipe de assistentes de pesquisa e doutorandos, e a possibilidade de visitar arquivos em diversas partes do mundo, indicam que a produção de uma história global tão extensa consome recursos significativos. Essa perspectiva levanta a questão de como a posição institucional pode moldar a narrativa histórica e a própria percepção da necessidade de uma abordagem tão abrangente.
O Vocabulário e a Perspectiva Crítica da Europa
A linguagem utilizada por Beckert em Capitalism: A Global History é outro ponto de análise. O crítico destaca o uso recorrente de termos como “forjar”, “espacial”, “vastas extensões”, “Antropoceno”, “eurocêntrico”, “simultaneidade”, “globalidade”, “lógicas”, “arquipélago”, “nós”, “ilhas” (em sentido metafórico), “zonas”, “mecanismo de engrenagem”, “mutável”, “indígena”, “privatizado” e “totalidade”. A palavra “forjar”, em particular, é apontada como a “heroína do proletariado do jargão intelectual”, presente em quase todas as páginas, desde a descrição da acumulação de capital que forja cidades até a proeminência social de famílias financeiras.
No que diz respeito ao conteúdo, os primeiros 400 anos abordados pelo livro (aproximadamente de 1000 a 1400 d.C.) são utilizados para, segundo Domitrovic, “ridicularizar a Europa”. Beckert descreve os mercadores egípcios, asiáticos e de outras partes do mundo como muito mais sofisticados que seus pares europeus, cujas cidades eram insignificantes em comparação a Bagdá, Áden, Cairo, Hangzhou e Cambay. A Europa é retratada como marginal na economia global, com comerciantes que aceitavam mercadorias inferiores. Embora a revisitação da vitalidade econômica não europeia seja válida, o tom consistentemente elogioso de Beckert para com o Oriente e crítico para com a Europa leva o leitor a suspeitar de uma organização da história para se encaixar em uma opinião predeterminada.
Escravidão e Exploração: O Coração da Tese Marxista
O verdadeiro cerne da obra de Beckert, onde o autor se aprofunda com maior entusiasmo, reside na história das economias escravistas do início da era moderna, lideradas pelos europeus. Locais como Barbados, os territórios de prata espanhóis nos Andes, as empreitadas holandesas na Indonésia e Saint-Domingue (Haiti) sob domínio francês recebem destaque. A tese central do livro é reiterada: o capitalismo tem uma única história mundial, e uma de suas principais faíscas surgiu nas florestas e pântanos das ilhas do Caribe e do continente americano.
A tese secundária de Beckert é que o Ocidente alcançou seu conforto material e financiou sua civilização por meio da exploração extrema de pessoas e ambientes distantes. O autor argumenta que o “fora” sem lei das colônias forneceu a base para o surgimento dos Estados liberais e ordeiros que se desenvolveriam em seu “interior” europeu. Contudo, o crítico aponta lacunas significativas na historiografia de Beckert. Há uma ausência de uma rica historiografia sobre a escravidão comparada e uma falta de análise convincente sobre a influência da religião na escravidão americana, que é equiparada a “ideologia”. A ligação entre intermediários islâmicos e a escravidão atlântica, a insistência de Roma no casamento sacramental e o desenvolvimento da cultura católica nas regiões escravistas, em grande parte pelas mãos dos jesuítas, são aspectos que não recebem a devida atenção, resultando em uma história que Domitrovic considera incompleta e tendenciosa.
Um Debate Essencial sobre a História do Capitalismo
A obra de Sven Beckert, apesar das críticas, representa um esforço ambicioso para reinterpretar a história do capitalismo sob uma ótica que prioriza as narrativas de exploração e dominação. O debate que ela provoca é fundamental para a compreensão das complexas origens do sistema econômico global e suas implicações sociais e culturais. Ao questionar as bases da civilização ocidental e as interconexões entre riqueza e exploração, Beckert desafia concepções tradicionais e convida a uma reflexão mais profunda sobre o legado do capitalismo.
Para o Diário Global, acompanhar e analisar essas discussões é crucial. Entender as diferentes perspectivas sobre a história econômica mundial nos permite contextualizar os desafios atuais e as dinâmicas de poder que moldam nosso presente. Continue conosco para se manter atualizado sobre os debates mais relevantes, as análises aprofundadas e as notícias que impactam o cenário global. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, que amplia horizontes e estimula o pensamento crítico.

