A maternidade, em sua essência, é uma jornada de descobertas e transformações, mas também um espelho que reflete as complexas teias da história familiar. Muitas mães brasileiras estão embarcando em um profundo processo de autoconhecimento, buscando compreender e ressignificar os padrões emocionais herdados de suas famílias. Essa jornada, muitas vezes silenciosa, é crucial para romper ciclos e construir um futuro mais saudável para as novas gerações.
O conceito de trauma transgeracional, uma ferida emocional que sobrevive por gerações, emerge como um ponto central nessa discussão. Ele se manifesta não apenas em grandes eventos, mas em ações e ausências sutis do cotidiano, moldando comportamentos, crenças e a forma como as mulheres vivenciam a maternidade e a vida.
A Herança Invisível: Trauma Transgeracional e Seus Ecos
A psicóloga húngara Noémi Orvos-Tóth, autora do livro “Sua Vida Começa Antes de Você: Família, Trauma e os Caminhos da Cura”, oferece uma perspectiva ampliada sobre o que constitui um trauma. Para ela, o conceito vai além de abusos explícitos, abrangendo também a falta de um sorriso, de uma palavra gentil ou de uma necessidade não atendida na infância. “Trauma transgeracional é basicamente uma ferida emocional que nossos ancestrais sofreram e passaram para a geração seguinte”, explica.
Essa transmissão, segundo a especialista, pode ocorrer de diversas formas. Biologicamente, a epigenética mostra como experiências traumáticas podem alterar a expressão de genes, influenciando as gerações futuras. Além disso, a dinâmica familiar e o que é dito – ou, crucialmente, o que não é dito – sobre o passado desempenham um papel fundamental. O silêncio, nesse contexto, também comunica, e aquilo que permanece velado pode ser herdado como um fardo invisível.
Comportamento Silencioso: Como os Padrões se Manifestam
Para a psicanalista Camila Menezes, a transmissão de uma geração a outra é um processo predominantemente inconsciente. A pessoa, muitas vezes, não consegue nomear a origem de certos comportamentos ou sentimentos. Esses padrões se manifestam não como lembranças claras, mas como reações, medos ou formas de agir que se repetem de maneira inexplicável.
“Para a psicanálise, não é um processo consciente”, afirma Menezes, destacando que é raro alguém perceber esses padrões sozinha. Geralmente, a identificação ocorre por meio de um olhar externo, como o de um amigo ou familiar, ou, mais comumente, durante o processo terapêutico, onde o indivíduo é guiado a explorar as raízes de suas questões emocionais e comportamentais. Para aprofundar-se no tema, é possível consultar estudos sobre a transmissão transgeracional do trauma em plataformas acadêmicas como a SciELO.
Distinguindo Herança de Trauma: Uma Perspectiva Necessária
A psicóloga Monalisa Barros, professora titular da Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) e especialista em saúde mental perinatal, alerta para o uso indiscriminado da palavra “trauma”. Ela ressalta que nem tudo o que é transmitido entre gerações é necessariamente um trauma patológico. “Há registros transgeracionais que não passam necessariamente pelo trauma, mas pela própria construção daquela família”, explica.
Barros defende que existem padrões que se repetem e se configuram como a cultura de uma família, o que ela chama de “herança transgeracional”. Reconhecer esses padrões não implica em condená-los, mas em compreendê-los. “Não é necessariamente considerá-lo ruim, mas entender que em algum momento ele pode ter feito sentido para os seus pais. E que neste momento faz sentido outra coisa”, pontua, abrindo espaço para a ressignificação sem culpa.
O Testemunho Pessoal: Marcas na Jornada Materna
A professora universitária Luana Gabriele Nilson, 40 anos, mãe de Aurora, 6, exemplifica como essas heranças podem se manifestar. Embora não guarde memórias de traumas graves na infância, ela reconhece marcas da maneira como foi criada em uma cidade do interior de Santa Catarina, mesmo com pais presentes.
Entre as heranças que mais a afetaram, Luana cita a pressão estética sobre o corpo, as expectativas sobre o papel da mulher e a crença de que o sucesso dependia de um desempenho acadêmico impecável. Essas mensagens, internalizadas desde cedo, geraram uma intensa autocobrança e o medo constante de decepcionar, impactando diretamente sua jornada como mãe e mulher.
O Caminho da Ressignificação: Terapia e Consciência
A busca por ressignificar esses padrões emocionais é um ato de coragem e amor, tanto por si mesma quanto pelas futuras gerações. Como sugere Noémi Orvos-Tóth, a chave está em “ser aberta, flexível e estimular novos pensamentos e perspectivas”. Isso significa questionar o que foi herdado, entender seu propósito original e decidir conscientemente o que manter, o que transformar e o que deixar para trás.
O processo terapêutico se mostra um aliado fundamental, oferecendo um espaço seguro para a exploração dessas heranças invisíveis. Ao trazer à luz o que antes era inconsciente, as mães podem desatar nós emocionais, liberando-se de pesos que não lhes pertencem e construindo uma maternidade mais autêntica e plena. É um trabalho contínuo de autoconhecimento que beneficia não só a mulher, mas toda a sua família, reescrevendo histórias com mais liberdade e bem-estar.
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