06.out.22/Folhapress

Preocupação global: queda de mortes por meningite desacelera e desafia metas da OMS

Saúde

A luta global contra a meningite, uma das principais causas infecciosas de deficiências neurológicas no planeta, enfrenta um momento crítico. Embora o número de mortes pela doença continue em declínio, o ritmo dessa redução desacelerou consideravelmente, colocando em xeque a ambiciosa meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de diminuir em 70% os óbitos até 2030, em comparação com os níveis de 2015. Este cenário de alerta foi revelado por um estudo abrangente publicado na edição de maio da revista The Lancet Neurology, que analisou dados de 2023.

A pesquisa, que avaliou 17 patógenos causadores da meningite, representa a análise internacional mais completa já realizada sobre o tema. Os resultados são claros: apesar dos avanços iniciais impulsionados pela vacinação, o progresso atual é insuficiente para alcançar o objetivo de reduzir significativamente as 300 mil mortes registradas em 2015. Em 2023, foram contabilizadas 259 mil mortes, um número ainda muito distante da projeção para o final da década.

O desafio global da meningite: uma meta distante

A meningite é caracterizada pela inflamação das meninges, as membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, geralmente causada por infecções bacterianas ou virais. A doença não apenas é letal, mas também é a principal causa infecciosa de deficiências neurológicas em todo o mundo. O estudo do Global Burden of Disease Study (GBD) aponta para mais de 2,5 milhões de novos casos da doença globalmente em 2023, evidenciando a persistência do problema.

A meta da OMS para 2030 visava uma redução drástica na mortalidade e na incidência da doença, além de melhorias no acesso ao diagnóstico e tratamento. Contudo, a estagnação observada nos últimos anos sugere que as estratégias atuais precisam ser revistas e intensificadas para evitar que milhões de pessoas continuem a ser afetadas por essa condição devastadora. A desaceleração reflete uma complexidade de fatores que vão além da simples disponibilidade de vacinas.

Fatores por trás da desaceleração no combate à doença

De acordo com o neurologista João Victor Luisi de Moura, do Einstein Hospital Israelita, a estabilização na queda de mortes por meningite é multifacetada. Ele explica que, após os ganhos iniciais com a introdução de vacinas eficazes, o progresso agora é dificultado por novos desafios. Entre eles, destaca-se o surgimento e avanço de sorotipos da doença que não são cobertos pelos imunizantes existentes, o que exige constante pesquisa e desenvolvimento de novas formulações.

Outro ponto crucial é o aumento relativo de causas virais da meningite, para as quais as vacinas bacterianas não oferecem proteção. Além disso, as profundas desigualdades no acesso à vacinação em escala global desempenham um papel determinante. Regiões com menor infraestrutura de saúde e populações mais vulneráveis frequentemente apresentam as menores coberturas vacinais, criando bolsões onde a doença continua a se propagar com maior facilidade e letalidade.

Impacto em crianças e a importância da imunização

As crianças menores de 5 anos são as mais vulneráveis à meningite, representando mais de um terço das mortes em 2023, com um total alarmante de 86,6 mil óbitos. Essa faixa etária é particularmente suscetível a casos graves e pode sucumbir à doença muito rapidamente sem tratamento imediato. Por isso, a vacinação infantil nos prazos recomendados pelas autoridades de saúde — com doses aos 3, 5 e 12 meses de vida — é absolutamente crucial.

O diagnóstico precoce e o início ágil do tratamento são essenciais para controlar a mortalidade. Os sintomas da meningite incluem dor de cabeça, febre e, em muitos casos, rigidez no pescoço, uma dificuldade em encostar o queixo no peito. Os principais agentes bacterianos identificados em 2023 foram Streptococcus pneumoniae (pneumococo) e Neisseria meningitidis (meningococo), além de enterovírus não poliomielíticos (EVNP), como alguns dos causadores da doença mão-pé-boca.

Fatores de risco como baixo peso ao nascer, prematuridade e poluição do ar domiciliar também contribuem para a mortalidade. As condições socioeconômicas desfavoráveis exacerbam o problema, pois populações de baixa renda enfrentam maiores barreiras para acessar serviços de saúde e campanhas de vacinação, ampliando tanto a incidência quanto a letalidade da doença.

Cenário brasileiro: avanços e obstáculos na vacinação

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um calendário de imunização que contempla proteção contra as principais bactérias causadoras da meningite, incluindo pneumococo, meningococo e as do grupo Haemophilus. No entanto, a cobertura vacinal no país tem ficado aquém das metas desejadas. A vacina contra o meningococo, por exemplo, atingiu 90,7% do público-alvo em 2025, um avanço em relação a anos anteriores, mas ainda abaixo do objetivo de 95%.

Desde a pandemia de Covid-19, as coberturas vacinais para diversas doenças, incluindo a meningite, registraram quedas significativas. O neurologista João Victor de Moura aponta que, no Brasil, a incidência e mortalidade em 2025 foram semelhantes às de 2014, indicando que o país não acompanhou sequer a modesta redução global. Essa estagnação ressalta a urgência de campanhas de conscientização e busca ativa para garantir que mais pessoas, especialmente crianças, estejam protegidas.

Uma notícia positiva recente é o anúncio do Ministério da Saúde, em 3 de junho, sobre o início da vacinação no SUS com a pneumo 20. Este imunizante oferece proteção contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, responsável por meningite e pneumonia. Os grupos prioritários para esta nova vacina incluem crianças menores de 5 anos, povos indígenas acima de 5 anos (sem histórico vacinal com pneumo conjugada), idosos com 60 anos ou mais acamados ou institucionalizados, e pessoas com condições clínicas específicas atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries).

Ações futuras e o caminho para o controle da meningite

Para reverter a desaceleração na queda de mortes por meningite e alcançar as metas da OMS, é fundamental um esforço coordenado em diversas frentes. Isso inclui o investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento de novas vacinas que cubram uma gama mais ampla de sorotipos e agentes causadores, tanto bacterianos quanto virais. Além disso, é imperativo fortalecer os sistemas de saúde para garantir o acesso equitativo à vacinação e a capacidade de diagnóstico e tratamento precoce em todas as regiões do mundo.

A superação das desigualdades socioeconômicas e a melhoria das condições de vida também são cruciais, pois fatores como baixo peso ao nascer e poluição do ar estão intrinsecamente ligados à vulnerabilidade à doença. Campanhas de educação pública e a conscientização sobre a importância da vacinação completa e no tempo certo são ferramentas poderosas para proteger as comunidades e, em última instância, salvar vidas. A colaboração internacional e o compromisso político são essenciais para que o mundo possa, de fato, controlar a meningite.

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