A fibromialgia, uma síndrome crônica que afeta milhões de pessoas, foi o foco de uma série de atividades em diversas cidades brasileiras neste domingo (17). A mobilização nacional teve como objetivo principal chamar a atenção para a complexidade da condição e pressionar por ações concretas que garantam o acesso a direitos e a um tratamento adequado no Sistema Único de Saúde (SUS). Em Brasília, o Parque da Cidade foi palco de um evento que ofereceu desde sessões de acupuntura e liberação miofascial até orientações sobre fisioterapia, apoio psicológico e rodas de conversa para conscientização, conforme noticiado pela Agência Brasil.
A invisibilidade da dor e a busca por acolhimento
A fibromialgia é caracterizada por dores musculares e articulares difusas e persistentes por mais de três meses, frequentemente acompanhadas de fadiga intensa, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e alterações de humor. Embora não cause inflamações visíveis ou deformações físicas, seu impacto na qualidade de vida é profundo, dificultando atividades cotidianas e o desenvolvimento profissional dos pacientes. A servidora pública Ana Dantas, uma das organizadoras da mobilização, ressalta a importância de dar visibilidade a essa condição. “É uma doença que não é visível, ela existe no nosso corpo, mas ninguém vê”, explica.
Ana Dantas, de 45 anos, descobriu a fibromialgia há pouco mais de um ano e vivencia as limitações impostas pela síndrome. Ela relata que tarefas simples podem levar horas para serem concluídas, além dos problemas de memória e da dor constante. “Coisas que a gente fazia ali durante 20 minutos se gasta umas três ou quatro horas para poder finalizar. É tudo muito lento, tem a questão do esquecimento, a gente esquece as coisas fácil, além da dor que a dor é toda do corpo”, desabafa. Essa realidade afeta a autoestima de muitos pacientes, que se veem limitados em suas rotinas. A psicóloga Mariana Avelar, que trabalha com pacientes com fibromialgia, destaca a importância da psicoeducação para que eles compreendam a condição e aprendam a lidar com suas limitações, recebendo o acolhimento necessário.
Entendendo a fibromialgia: sintomas, causas e impacto
A fibromialgia é mais comum em mulheres entre 30 e 60 anos, mas pode afetar pessoas de qualquer idade e gênero. As causas exatas ainda são objeto de estudo, mas especialistas apontam para alterações no funcionamento do sistema nervoso central, que amplifica a percepção da dor. Fatores como estresse prolongado, traumas físicos ou emocionais, ansiedade, depressão e predisposição genética podem contribuir para o seu surgimento.
Entre os principais sintomas, além da dor generalizada, estão a sensibilidade ao toque, sensação constante de cansaço, sono não reparador, rigidez muscular e episódios de “névoa mental”, que se manifestam como dificuldade de memória e atenção. Outros sintomas podem incluir dores de cabeça, síndrome do intestino irritável e maior sensibilidade a ruídos, luzes e temperatura. O diagnóstico é essencialmente clínico, realizado por meio da avaliação médica e da exclusão de outras doenças com manifestações semelhantes.
Avanços legais e os desafios da implementação no SUS
Nos últimos anos, o Brasil tem avançado no reconhecimento da fibromialgia. Uma lei federal de 2023 estabeleceu diretrizes para o atendimento a pacientes com a síndrome no SUS. A legislação prevê atendimento multidisciplinar, incentivo à divulgação de informações sobre a doença e estímulo à capacitação de profissionais de saúde. Além disso, o enquadramento legal garante aos pacientes com fibromialgia acesso aos mesmos direitos de Pessoa com Deficiência (PcD), mediante aprovação em avaliação biopsicossocial. Isso pode incluir a possibilidade de acessar auxílio por incapacidade temporária (auxílio-doença), aposentadoria por invalidez e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Apesar desses avanços legislativos, a realidade na ponta ainda é desafiadora. Ana Dantas reforça que a mobilização visa “buscar políticas públicas, adequar a demanda da comunidade fibromiálgica no SUS”. A enfermeira Flávia Lacerda, que também participou da atividade e tem experiência com pacientes, aponta que, na prática, o acesso a esses benefícios e direitos ainda é excessivamente burocrático. “E muitos profissionais ainda não sabem inclusive dessa lei e como abordar o problema. A lei precisa pegar de verdade”, destaca. A escassez de dados precisos sobre o número de pessoas com fibromialgia no país também reflete a pouca visibilidade e a necessidade de mais atenção à síndrome.
Diagnóstico e as abordagens terapêuticas para o controle da síndrome
O tratamento da fibromialgia geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar e combinada. Medicamentos são utilizados para controlar a dor, melhorar a qualidade do sono e tratar sintomas associados, como ansiedade e depressão. A prática regular de exercícios físicos, como caminhadas, hidroginástica e alongamentos, é considerada fundamental para a redução dos sintomas e a melhoria da funcionalidade. Terapias psicológicas, fisioterapia, técnicas de relaxamento e mudanças no estilo de vida também são componentes cruciais das estratégias terapêuticas mais recomendadas. Embora a fibromialgia não tenha uma cura definitiva, ela pode ser controlada, permitindo que muitos pacientes mantenham uma rotina ativa e uma boa qualidade de vida.
A mobilização como a realizada em Brasília e outras cidades é um passo vital para que a sociedade e o poder público compreendam a urgência de garantir suporte integral aos pacientes. É fundamental que a legislação seja efetivamente aplicada, que os profissionais de saúde sejam capacitados e que a população esteja informada sobre a fibromialgia, promovendo um ambiente de maior acolhimento e menos burocracia. Para continuar acompanhando as notícias mais relevantes e contextualizadas sobre saúde e outros temas de interesse global, acesse o Diário Global. Nosso compromisso é com a informação de qualidade que faz a diferença na sua vida.
