Guilherme Matos/Folhapress

Prefeitura de São Paulo diminui multas à Sabesp após privatização, mas mantém cobranças internas

Politica

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo tem adotado uma abordagem notavelmente diferente em relação à Sabesp após a privatização da companhia. Dados recentes revelam uma redução significativa no volume de multas aplicadas à concessionária, embora, nos bastidores, a prefeitura mantenha um tom de cobrança e insatisfação com a qualidade dos serviços prestados. Essa dinâmica complexa aponta para um equilíbrio delicado entre a agenda política de privatizações e a necessidade de fiscalização dos serviços públicos essenciais.

Em 2024, ano em que a privatização da Sabesp teve início em julho, a prefeitura registrou a aplicação de 3.568 multas, que somaram um valor total de R$ 263,2 milhões. No entanto, no ano seguinte, em 2025, o cenário mudou drasticamente, com apenas 1.340 multas aplicadas, totalizando R$ 67,2 milhões. Essa queda substancial nos números indica uma mudança na estratégia de fiscalização ou, no mínimo, na formalização das penalidades.

A Redução das Multas e o Cenário Pós-Privatização

A diminuição das multas à Sabesp ocorre em um contexto político sensível. A privatização da empresa de água e saneamento é uma das principais bandeiras do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado político do prefeito Ricardo Nunes. Esta aliança pode explicar a postura mais discreta da gestão municipal, que evita críticas públicas diretas à concessionária, mesmo diante de problemas que afetam a população.

Ainda que os números de multas tenham caído, a prefeitura não está alheia aos problemas. Fontes internas indicam que as cobranças são feitas de forma velada, com o próprio prefeito Nunes enviando à cúpula da Sabesp evidências, como prints e links de notícias, sobre acidentes e transtornos causados pelas deficiências da empresa. Essa comunicação interna, sem o alarde público, contrasta com a postura adotada em outras situações de fiscalização de serviços.

As Razões das Infrações: Buracos e Qualidade Asfáltica

As infrações que motivam as multas e as reclamações da prefeitura estão diretamente ligadas à infraestrutura urbana. Elas incluem a ocorrência de buracos, crateras e a má qualidade das obras de recomposição asfáltica realizadas pela Sabesp após intervenções em suas redes. Tais problemas não apenas causam transtornos no trânsito, mas também representam riscos significativos para motoristas, motociclistas e pedestres, podendo resultar em acidentes e danos a veículos.

A manutenção inadequada das vias públicas após obras de saneamento é uma queixa recorrente em grandes centros urbanos. A exigência de parâmetros técnicos rigorosos para a recomposição asfáltica visa garantir a durabilidade do pavimento e a segurança viária, aspectos que, segundo a gestão municipal, nem sempre são atendidos pela concessionária.

A Postura Discreta da Gestão Nunes e o Contraste com a Enel

A discrição da gestão Nunes em relação à Sabesp é ainda mais evidente quando comparada à sua postura com outras concessionárias. A Enel, por exemplo, empresa responsável pela distribuição de energia elétrica, tem sido alvo constante de críticas públicas e cobranças incisivas por parte do prefeito. Essa diferença de tratamento sugere uma estratégia política calculada, onde a defesa da privatização da Sabesp, um projeto do governo estadual, tem prioridade sobre a exposição de falhas.

A privatização de serviços essenciais sempre gera debates sobre a capacidade de fiscalização do poder público e a garantia da qualidade para o cidadão. No caso da Sabesp, a gestão municipal parece optar por uma via menos confrontadora publicamente, buscando resolver as questões internamente para não fragilizar a imagem de um projeto político de grande envergadura.

Descontentamento nas Periferias: O Desafio do Saneamento

Apesar da redução das multas e da discrição oficial, o descontentamento com a qualidade do serviço de saneamento básico da Sabesp persiste, especialmente nas regiões periféricas da cidade. Membros da prefeitura expressam insatisfação com a cobertura e a eficiência dos serviços nessas áreas, onde a infraestrutura muitas vezes é mais precária e as demandas são maiores.

A universalização do saneamento é um desafio histórico para o Brasil, e a privatização é apresentada como uma solução para atrair investimentos. No entanto, a garantia de que esses investimentos se traduzam em melhorias efetivas para toda a população, em especial para os mais vulneráveis, continua sendo um ponto crucial de acompanhamento e fiscalização, mesmo que as cobranças não sejam sempre vocalizadas publicamente.

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