16.out.11/Folhapress

A neurocientista Suzana Herculano-houzel e o prazer das incertezas na vida cotidiana

Saúde

Em um mundo cada vez mais pautado pela busca incessante por controle e previsibilidade, a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt (EUA), oferece uma perspectiva contraintuitiva: o verdadeiro prazer, muitas vezes, reside nas pequenas incertezas da vida. Sua reflexão, ancorada tanto em memórias de infância quanto em profundos conhecimentos sobre o funcionamento cerebral, convida a uma reavaliação de como percebemos e valorizamos o inesperado.

A visão de Herculano-Houzel desafia a noção comum de que a felicidade está em antecipar e acertar cada passo. Pelo contrário, ela argumenta que a imprevisibilidade, especialmente aquela que se manifesta na natureza, como o humor do mar ou as mudanças repentinas do clima, é um catalisador para a apreciação da existência e para a formação de memórias significativas.

A nostalgia da imprevisibilidade: lições da infância à beira-mar

A neurocientista resgata lembranças de sua infância, quando os verões eram passados em uma aldeia de pescadores. Naquela época, o mar aberto era uma fonte constante de incertezas: um dia calmo como o Caribe, no outro “bravo” ou “de ressaca”. A criança que ela era desejava um mar de piscina todos os dias, e os meses de janeiro podiam variar de escaldantes a chuvosos, como no famoso “Verão da Sucessora”, onde a chuva era uma constante.

Essa imprevisibilidade, que na infância era vista como um problema, hoje, sob a ótica da neurocientista adulta, é percebida como um luxo. Ela observa que, em contraste com outros lugares, a meteorologia em sua praia atual raramente acerta, devido à complexidade dos fatores envolvidos. Promessas de sol viram chuva, e previsões de chuva dão lugar a dias gloriosos, tornando cada amanhecer uma descoberta.

O cérebro e a busca pelo inesperado

A ciência explica essa atração pelo imprevisível. O cérebro humano possui um complexo sistema de estruturas interconectadas, incluindo o cerebelo, que são responsáveis pelas capacidades de associação e previsão. No entanto, é quando algo foge do esperado que esse sistema de recompensa é ativado, liberando dopamina.

Contrariando a crença popular, a dopamina não sinaliza a promessa de prazer em si, mas sim aquilo que vale o esforço de partir para a ação. Quando uma conexão entre dois eventos é estabelecida e eles invariavelmente acontecem juntos, não há mais informação nova a ser extraída, e o interesse diminui. O que é garantido, como um mar sempre calmo, perde a graça porque a ação de interagir com ele não exige esforço ou descoberta.

O valor das surpresas na rotina

Para Herculano-Houzel, ter surpresas que se tornam dignas de formar memórias é parte essencial da experiência de estar vivo. A rotina de levantar e descobrir o “humor de Iemanjá” no mar, ou a altura da maré que não se alinha com as 24 horas do dia, são exemplos de como pequenas incertezas podem enriquecer a vida. Quando a chuva cessa, o sol pinta a paisagem de amarelo e o mar se acalma, a sensação é de gratidão pela sorte de estar vivo e poder desfrutar daquele momento único.

A neurocientista relata ter sido presenteada com um “lagamar” tão profundo que permitiu nadar de braçada, um evento raro que até seu pai, mais cauteloso, aproveitou. Essa experiência reforça a ideia de que o prazer não está na antecipação e no acerto, mas na capacidade de se expor aos acontecimentos e extrair informações e emoções do que é inesperado.

A certeza da morte e a celebração da vida

A reflexão de Suzana Herculano-Houzel culmina na maior de todas as incertezas: a morte. Ela argumenta que a única certeza que verdadeiramente nos ajuda é a da finitude no horizonte. Com essa consciência, descobrir-se vivo mais um dia se torna algo digno de nota e comemoração. A ausência de surpresas, onde a previsão sempre acerta, anula a chance de vivenciar o inesperado e, consequentemente, de formar memórias vibrantes que dão sentido à existência.

A perspectiva da neurocientista nos convida a abraçar a beleza da imprevisibilidade, a valorizar cada momento de surpresa e a encontrar o prazer genuíno nas pequenas incertezas que a vida nos oferece. É um lembrete de que, ao invés de lutar contra o desconhecido, podemos aprender a dançar com ele, enriquecendo nossa jornada.

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