Em um cenário global cada vez mais complexo e polarizado, a verdade factual parece perder terreno para narrativas construídas, muitas vezes, sem lastro na realidade. É nesse contexto que o jornalista e colunista Marcelo Leite, autor de obras como “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”, propõe o conceito de “psicose artificial” para descrever a atual dinâmica da informação. Segundo Leite, vivemos uma época em que a desinformação, impulsionada por novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial (IA), não apenas distorce, mas redefine a própria percepção do que é real, com profundas implicações para a política, a ciência e a sociedade.
A análise de Leite, publicada originalmente em 17 de maio de 2026, destaca como a lógica da comunicação pública se transformou. Se antes a máxima “é a economia, estúpido” ditava o tom, hoje prevalece “é a narrativa, estúpido”. Essa mudança sinaliza que a coerência e a veracidade dos fatos foram suplantadas pela capacidade de construir e disseminar histórias, mesmo que incoerentes, mendazes ou alucinadas. O objetivo é engajar um público já predisposto a concordar, os chamados “escravos do viés de confirmação”, que buscam validação para suas crenças pré-existentes, independentemente da evidência.
A ascensão da narrativa sobre os fatos
A era da psicose artificial se manifesta de forma contundente no campo político. Marcelo Leite exemplifica com a situação de um pré-candidato à presidência que, pego em uma mentira sobre um pedido de milhões, mente novamente, alegando uma cláusula de sigilo contratual como justificativa. O mais preocupante, aponta o colunista, é a aparente falta de consequências: o político não cora, seus eleitores fiéis não se abalam e sua posição na disputa não é comprometida. Esse cenário reflete uma sociedade onde a verdade objetiva é secundária à lealdade tribal e à eficácia da narrativa.
Essa dinâmica se estende a debates cruciais, como os que cercam cessar-fogos em regiões de conflito, onde diferentes versões dos acontecimentos são apresentadas para públicos distintos, cada um reforçando suas próprias convicções. A polarização é alimentada por narrativas que, muitas vezes, beiram o absurdo, como a crença em “mamadeira de piroca”, “cloroquina”, “proxalutamida” e “ivermectina” como soluções milagrosas, ou a desconfiança em vacinas e o consumo de substâncias perigosas como detergente. A tática da “guerra cultural” moderna, segundo Leite, é inundar o campo com “excrementos”, turvando as águas da retórica política e priorizando a reação imediata sobre a verificação dos fatos e a ponderação de argumentos.
O impacto da desinformação na esfera pública
As consequências dessa “psicose artificial” são vastas e afetam a própria estrutura do debate público. A verificação dos fatos, a obediência à lógica e o benefício da dúvida são substituídos por atos reflexos e juízos prontos. A reputação, antes um pilar da vida pública, torna-se frágil diante do “clima de pega para cancelar”. Marcelo Leite cita o caso da artista Marília Marz, cuja charge crítica aos “penduricalhos do Judiciário” foi instrumentalizada como suposto deboche à morte de uma juíza, gerando uma onda de cancelamento que envolveu até mesmo uma pesquisadora da Academia Brasileira de Letras (ABL).
A adaptação da máxima de Dostoiévski, “se Deus não existe, tudo é permitido”, para “se fatos não existem nem para luminares da academia (ou das redes antissociais), vale tudo”, ressalta a gravidade da situação. A erosão da verdade não se restringe à política ou às redes sociais; ela ameaça a integridade de instituições fundamentais, como a ciência, que deveria ser o baluarte da objetividade e da busca pelo conhecimento.
Inteligência artificial e a fabricação de falsidades
A ciência, embora tradicionalmente vista como imune a tais distorções, enfrenta agora uma nova e poderosa ameaça: a inteligência artificial. A fabricação de dados, a maquiagem de estatísticas e a manipulação de imagens sempre foram desafios para a pesquisa acadêmica, como atesta a microbiologista Elizabeth Bik, conhecida por seu trabalho na detecção de fraudes em publicações científicas. No entanto, as ferramentas digitais e a IA elevam essa capacidade a um novo patamar.
As mentiras produzidas por IA, carinhosamente apelidadas de “alucinações”, carecem do lastro de sofrimento das psicoses reais, mas são igualmente destrutivas para a verdade. Um sintoma alarmante dessa fabulação é a invenção de citações em trabalhos científicos. Uma pesquisa de Zhenyue Zhao e colegas, publicada como preprint no diretório arXiv, quantificou esse fenômeno. Ao analisar 111 milhões de referências em 2,5 milhões de artigos de 2025 em coleções como arXiv, bioRxiv, SSRN e PubMed, os pesquisadores encontraram 146.932 citações falsas – referências a trabalhos que simplesmente não existem. Essa capacidade de forjar um paper com “eficiência módica de um enxame de drones iranianos” bombardeia a integridade do edifício do conhecimento, tornando a distinção entre o real e o fabricado cada vez mais tênue.
Desafios para a verdade na era digital
A “psicose artificial” descrita por Marcelo Leite aponta para um futuro onde a capacidade de discernir a verdade se torna um desafio diário e exaustivo para o cidadão comum. A proliferação de informações falsas, a manipulação de narrativas e a crescente sofisticação da desinformação impulsionada pela IA exigem uma vigilância constante e um ceticismo saudável. Para o leitor, compreender essa dinâmica é crucial para navegar em um ambiente informacional saturado, onde a credibilidade das fontes e a verificação dos fatos são mais importantes do que nunca.
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