O que começou como um hábito social em festas com amigos transformou-se em um pesadelo prolongado para a empreendedora Ariane Lima Correia. Aos 26 anos, ela relata ter enfrentado graves complicações respiratórias, incluindo a possibilidade de precisar remover parte de um dos pulmões, após anos de consumo intermitente de narguilé e cigarros eletrônicos. O caso, que serve de alerta, ilustra como a percepção de que o uso recreativo é inofensivo pode esconder danos profundos e duradouros ao organismo.
A ilusão do consumo social e seus impactos reais
Ariane iniciou o contato com o narguilé aos 16 anos, em um cenário onde o dispositivo era presença constante em encontros sociais. A prática, muitas vezes vista como uma atividade de lazer inofensiva, evoluiu com a popularização dos vapes. A jovem, que nunca fumou dentro de casa, acreditava que o consumo restrito aos fins de semana não traria consequências graves. No entanto, a realidade médica aponta que a exposição, mesmo que esporádica, submete as vias aéreas a um bombardeio de substâncias tóxicas.
A pneumologista Ingrid Higashi, do Hospital Estadual de Bauru e da rede One Care, explica que cada sessão de fumo provoca um processo inflamatório nos alvéolos. “No curto prazo, podem aparecer tosse, catarro, chiado e falta de ar. A repetição da exposição pode manter um processo inflamatório e contribuir para alterações pulmonares”, alerta a especialista. O caso de Ariane, que chegou a ficar 45 dias internada, é um exemplo de como o tecido pulmonar pode sofrer danos severos, assemelhando-se ao de um fumante de longa data.
Mitos sobre a filtragem e a toxicidade do narguilé
Um dos maiores equívocos em torno do narguilé é a crença de que a água atua como um filtro eficiente para as toxinas. O pneumologista Luiz Felipe Natel Kugler Mendes, do Hospital Vita de Curitiba, esclarece que, embora a água possa reduzir a temperatura da fumaça, ela não é capaz de reter as substâncias nocivas. Além disso, a combustão do carvão utilizado para aquecer o tabaco libera monóxido de carbono, que se liga à hemoglobina e compromete severamente a oxigenação do sangue.
A falta de higienização dos dispositivos também é um fator de risco crítico. O compartilhamento do bocal entre várias pessoas facilita a transmissão de vírus e bactérias, como influenza, herpes e até tuberculose. Além disso, a água parada no interior do aparelho pode se tornar um meio de cultura para microrganismos, aumentando as chances de infecções pulmonares graves, independentemente da qualidade do tabaco utilizado.
Uma jornada de superação e tratamento prolongado
Após sucessivas internações e o diagnóstico de tuberculose, Ariane enfrentou uma perda drástica de peso e um longo processo de recuperação. Em 2025, novos sintomas levaram à identificação de uma infecção por Mycobacterium avium, uma micobactéria que exige um tratamento complexo e de longa duração. A trajetória da jovem destaca que os danos causados pelo tabagismo, inclusive o social, podem desencadear doenças infecciosas e inflamatórias crônicas, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
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