5.jun.26/Folhapress

Romance premiado de Estelle-sarah Bulle expõe o racismo velado no republicanismo francês

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A literatura tem se mostrado uma ferramenta poderosa para desvelar as complexas camadas de injustiça social e histórica. Recentemente, a escritora e jornalista brasileira Bianca Santana, colunista da Folha de S.Paulo, compartilhou uma mesa na Feira do Livro com a autora francesa Estelle-Sarah Bulle, em um encontro que jogou luz sobre as contradições do republicanismo francês e o racismo estrutural. O centro da discussão foi o aclamado romance de Bulle, “Onde o vento faz a curva”, que, através de suas páginas, expõe a realidade de cidadãos franceses de Guadalupe que, ao chegarem à metrópole, são tratados como imigrantes e enfrentam uma profunda discriminação racial.

A obra, originalmente publicada em 2018 com o título “Là où les chiens aboient par la queue” e vencedora do Prix Goncourt 2019, chega ao Brasil pela Editora 34. A narrativa de Bulle, filha de pai guadalupense e mãe franco-belga, ressoa com a experiência pessoal da autora, que frequentemente se depara com a pergunta “De onde você vem?” e, ao responder “banlieue parisiense”, é confrontada com um insistente “E antes?”. Essa sequência de questionamentos encapsula a “mentira” atravessada por aqueles que, embora formalmente franceses desde que Guadalupe se tornou um departamento em 1946, são percebidos e tratados como estrangeiros em sua própria nação.

A cidadania sem simetria e a tensão linguística

O título original do romance, uma expressão crioula que remete a um lugar distante e quase impossível, já sinaliza a tensão linguística e cultural que permeia a obra. Para Estelle-Sarah Bulle, a expressão condensa o atrito que a língua francesa, oficial e dominante, acomoda e tensiona com o crioulo, falado nas Antilhas. Essa fricção não é apenas linguística, mas um reflexo da “cidadania sem simetria” que caracteriza a relação entre a metrópole e seus departamentos ultramarinos. Críticos que tentaram enquadrar o livro como uma narrativa de “duas gerações antilhanas presas entre dois mundos” são, na visão de Bianca Santana, pouco adequados para compreender a profundidade do colonialismo, pois não há equivalência entre os mundos, mas sim uma hierarquia imposta.

As raízes históricas do racismo francês

Para compreender a complexidade do racismo francês abordado no romance, é fundamental revisitar o passado colonial. Entre os séculos XVII e XIX, centenas de milhares de africanos foram sequestrados e escravizados nas colônias francesas do Caribe, incluindo Guadalupe, para sustentar a lucrativa economia do açúcar, pilar do império. O deslocamento em massa de pessoas da colônia para a metrópole, ocorrido em períodos posteriores, não foi uma simples migração, mas uma “tecnologia de gestão populacional”. Essa política visava atender demandas de mão de obra barata na França, controlar questões de gênero e reduzir tensões sociais nos territórios ultramarinos, ainda assombrados pela lembrança da Revolução Haitiana, que demonstrou a capacidade dos escravizados de derrotar um império.

Contradições e a hierarquia colonial interna

O romance de Bulle, através das narrativas em primeira pessoa de personagens como Antoine, Lucinde, Maninho e a sobrinha, permite ao leitor “sentir as contradições” de uma suposta ascensão social que, na verdade, é permeada por um profundo racismo. A obra não se limita a denúncias diretas, mas explora como a hierarquia colonial se manifesta até mesmo dentro da própria comunidade antilhana. A cor da pele, a busca por um casamento “desejável”, a vergonha do crioulo e a ambição de se aproximar mais da França do que da ilha são reflexos dessa internalização da lógica colonial. Assim como no Brasil, ser mais claro em Guadalupe podia ser percebido como um caminho para “estar a salvo”, revelando as nuances da opressão racial.

Ecos da diáspora negra e a relevância da obra

As experiências narradas em “Onde o vento faz a curva” encontram eco em diversas comunidades da diáspora negra ao redor do mundo, incluindo o Brasil. A forma como o racismo colonial transformou pessoas em objetos, o papel das mulheres como guardiãs das comunidades, a inferiorização de línguas e dialetos como o crioulo e o “pretuguês”, e a valorização da saída – seja da zona rural, da banlieue ou da periferia – como um sinal de progresso, são temas universais. O caleidoscópio de percepções oferecido pelas diferentes vozes no livro – da sobrinha, do pai e das duas tias – convoca o leitor a uma profunda reflexão sobre as diversas formas de ser e sentir-se negro em um mundo ainda marcado por legados coloniais. A obra de Estelle-Sarah Bulle é, portanto, um convite à compreensão e ao debate sobre as complexas identidades e lutas por reconhecimento em sociedades pós-coloniais.

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