A decisão de autorizar a doação de órgãos de um ente querido é um dos momentos mais delicados e complexos que uma família pode enfrentar, especialmente após a constatação de morte cerebral. No Brasil, essa difícil escolha se reflete em uma taxa média de recusa familiar que gira em torno de 45%, um índice preocupante que impacta diretamente a fila de espera por transplantes e a capacidade do sistema de saúde de salvar vidas. Essa porcentagem não é estática, variando significativamente entre diferentes estados e até mesmo entre hospitais de uma mesma cidade, o que sugere que a recusa não depende apenas da vontade da população, mas também de fatores institucionais e da qualidade do acolhimento oferecido.
O cenário nacional dos transplantes, embora tenha apresentado avanços, ainda enfrenta barreiras significativas. A alta taxa de recusa familiar impede que milhares de potenciais doadores se tornem efetivos, prolongando a espera e, em muitos casos, comprometendo a chance de recuperação de pacientes que dependem de um novo órgão para sobreviver ou ter uma melhor qualidade de vida. Compreender os motivos por trás dessa recusa e desenvolver estratégias eficazes para superá-la é crucial para o futuro da doação de órgãos no país.
Comunicação e acolhimento: pilares para a doação de órgãos
Segundo Cristiano Franke, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), a falha no acolhimento e na comunicação dentro dos hospitais, tanto públicos quanto privados, é um dos principais obstáculos para a efetivação das doações. Embora muitos pacientes expressem em vida o desejo de doar e muitas famílias busquem honrar essa vontade, a forma como são abordadas no momento da perda pode ser determinante.
Franke destaca que, frequentemente, as famílias não recebem informações adequadas, no momento certo e com um protocolo apropriado para tomar uma decisão tão importante. Ele aponta que as equipes médicas, muitas vezes, não estão preparadas para lidar com conversas difíceis, utilizando termos excessivamente técnicos e inacessíveis, ou realizando abordagens que podem ser percebidas como frias e comerciais, em locais inadequados. Essa falta de sensibilidade e clareza pode gerar desconfiança e aumentar a resistência.
Desafios na aceitação familiar e o papel da informação
As dificuldades que levam os familiares a não autorizar a doação são diversas e complexas. Entre elas, destacam-se a compreensão ou aceitação do diagnóstico de morte encefálica, que muitas vezes é confundido com coma ou outras condições reversíveis. Crenças religiosas, o receio de alteração da integridade do corpo do falecido e a desconfiança em relação ao processo de doação e transplante também são fatores relevantes.
Além disso, o desconhecimento sobre a vontade manifestada em vida pelo familiar e a percepção de que os profissionais estariam mais interessados nos órgãos do que no paciente ou em seus familiares podem pesar na decisão. Franke ressalta a importância de explicar detalhadamente o procedimento, inclusive a reconstituição do corpo, para dissipar o receio de deformidades visíveis nos ritos funerais, como o velório. “Precisamos explicar isso com tempo e clareza”, afirmou.
Capacitação de profissionais: um investimento estratégico
Diante desse cenário, a AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, implementou uma iniciativa fundamental: a capacitação de profissionais de saúde para atuar no processo de doação e transplantes de órgãos. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, 2.534 profissionais foram treinados, superando em 25% a meta inicial de 2 mil participantes.
O objetivo central desses cursos é ampliar o número de profissionais aptos a conduzir todo o processo, desde a identificação de potenciais doadores até a comunicação com as famílias, visando reduzir a resistência e aumentar as autorizações. A formação também busca qualificar as diferentes etapas que antecedem uma doação, abrangendo a determinação da morte encefálica e a manutenção clínica do potencial doador, tornando o processo mais seguro e ético.
Até agosto, foram realizados 73 cursos, distribuídos em 23 módulos e com atividades em 25 estados brasileiros. Entre os participantes, 933 eram médicos, sendo que 473 receberam treinamento específico em determinação de morte encefálica. Os demais, incluindo enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem e outros profissionais, tiveram instruções sobre o Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante (GPDT) e o uso da Comunicação em Situações Críticas (CSC).
Panorama dos transplantes no Brasil
Os dados do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), ilustram a urgência da questão. Em 2025, o país registrou 15.940 potenciais doadores. Desse total, apenas 4.335 se tornaram doadores efetivos. No mesmo período, 4.200 famílias entrevistadas não autorizaram a doação, o que corresponde a 45% das entrevistas realizadas. Apesar dos desafios, o Brasil alcançou 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes em 2025, um aumento em relação aos 19,2 de 2024, indicando um esforço contínuo para melhorar os índices.
A capacitação de profissionais e a melhoria na comunicação são passos essenciais para transformar esse cenário. Ao garantir que as famílias recebam o apoio e as informações necessárias em um momento de extrema vulnerabilidade, o sistema de saúde pode aumentar as chances de doação e, consequentemente, salvar mais vidas. O compromisso com a educação e a humanização do processo é a chave para superar a alta taxa de recusa e fortalecer a cultura da doação no país.
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