25.jan.26/Folhapress

Rituais religiosos fortalecem laços sociais e elevam tolerância à dor, aponta estudo

Saúde

A participação em atos religiosos, como missas e celebrações, vai além da dimensão espiritual, impactando diretamente o bem-estar físico e social dos indivíduos. Um estudo recente, conduzido no Brasil e no Reino Unido e publicado na prestigiada revista Proceedings of the Royal Society B, revelou que a prática de rituais religiosos libera substâncias químicas no organismo que não apenas fortalecem os vínculos sociais, mas também aumentam o limiar de percepção da dor. A pesquisa, divulgada em 26 de junho de 2026, oferece uma nova perspectiva sobre os benefícios tangíveis da fé e da comunidade.

As descobertas se baseiam em pesquisas anteriores que já haviam demonstrado o papel crucial dos opioides produzidos naturalmente pelo corpo, como a betaendorfina, no apego social entre animais e nas complexas relações humanas. Essas “substâncias químicas do bem-estar” são liberadas em diversos comportamentos, contribuindo significativamente para o sentimento de pertencimento e coesão grupal, conforme explicou Valerie van Mulukom, coautora do estudo.

A Ciência por Trás dos Rituais Religiosos e o Vínculo Social

A liberação de opioides naturais é um mecanismo biológico fundamental para a formação de laços. Em espécies como os macacos, por exemplo, sessões de limpeza mútua são um gatilho conhecido para essa produção. No entanto, em sociedades humanas de grande escala, onde as interações individuais são insuficientes para conectar centenas ou milhares de pessoas, outros mecanismos se desenvolveram.

Segundo a teoria do biólogo evolutivo britânico Robin Dunbar, os seres humanos desenvolveram comportamentos específicos que permitem a produção dessas mesmas substâncias químicas em uma escala muito maior do que as interações face a face. Entre esses comportamentos estão o movimento sincronizado, o canto coletivo, a produção musical conjunta e, crucialmente, o compartilhamento de crenças. Os rituais religiosos, por sua natureza, englobam todos esses elementos, criando um ambiente propício para a liberação dessas substâncias e o fortalecimento de laços sociais.

Metodologia e Abrangência da Pesquisa

Para testar essa hipótese, os pesquisadores realizaram 24 estudos de campo, envolvendo fiéis em diferentes contextos culturais e religiosos. No Reino Unido, os participantes eram cristãos de diversas denominações, enquanto no Brasil, o foco foi em praticantes da umbanda, uma religião afro-brasileira rica em sincretismo, que combina espiritismo, danças, ritmos africanos e elementos do catolicismo.

Antes e depois das celebrações, os participantes responderam a questionários detalhados sobre seu sentimento de pertencimento ao grupo. Para medir indiretamente a produção de opioides, os cientistas recorreram a um método engenhoso: a aferição do limiar da dor. Um manguito de pressão era aplicado no braço dos participantes até que relatassem um “incômodo importante”, servindo como um indicador não invasivo da tolerância à dor, que está ligada à presença de opioides no organismo.

Os Impactos Comprovados dos Rituais

Os resultados foram consistentes e reveladores. Após a participação nos rituais, os fiéis apresentaram uma notável melhora em diversos aspectos: uma maior sensação de vínculo social, um aumento significativo do limiar da dor, um crescimento do afeto positivo e uma redução do afeto negativo. A pesquisa também destacou que quanto mais as pessoas se sentiam conectadas com Deus durante o ritual, mais isso contribuía para a criação de laços com os outros membros da comunidade.

Valerie van Mulukom enfatiza que, além das atividades sincronizadas, “há algo nas crenças que essas pessoas integram à própria identidade que as une com mais força”. Ela compara esse fenômeno à participação em uma manifestação política alinhada às próprias convicções, onde o sentimento de união com outros manifestantes é mais profundo do que em um show, mesmo que neste último haja mais sincronia de movimentos e canto. A partilha de um sistema de valores e crenças parece ser um catalisador poderoso para a coesão social.

Implicações para a Compreensão da Sociedade e da Fé

Este estudo oferece insights valiosos sobre a função social e psicológica dos rituais religiosos. Ele sugere que a fé e a prática coletiva não são apenas fontes de conforto espiritual, mas também mecanismos eficazes para a construção de comunidades resilientes e para o manejo da dor, tanto física quanto emocional. Compreender esses processos pode ter implicações para a saúde pública, a sociologia e até mesmo para o design de intervenções que visem fortalecer o tecido social em diferentes contextos.

Em um mundo cada vez mais conectado digitalmente, mas por vezes fragmentado socialmente, a capacidade dos rituais de gerar um senso profundo de pertencimento e bem-estar coletivo se mostra mais relevante do que nunca. Para mais detalhes sobre a pesquisa, consulte a publicação original na Proceedings of the Royal Society B.

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