Rússia exclui Iabloko, partido anti-guerra, de pleito parlamentar

Rússia exclui Iabloko, partido anti-guerra, de pleito parlamentar

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A Suprema Corte da Rússia proferiu uma decisão que reverberou no cenário político nacional, banindo o partido Iabloko das eleições parlamentares agendadas para 20 de setembro de 2026. A medida, anunciada nesta segunda-feira (10), atinge a única legenda legal no país que mantinha uma agenda abertamente contrária à Guerra da Ucrânia, deflagrada pela invasão russa em fevereiro de 2022.

O Iabloko, cujo nome é um acrônimo para seus três fundadores e significa “maçã” em russo, foi alvo de acusações de que seus candidatos seriam “traidores” que recebiam financiamento do exterior. As alegações foram apresentadas pela pequena sigla nacionalista Rodina (pátria), e a decisão judicial marca um endurecimento ainda maior no já restrito espaço para a dissidência política na Rússia.

O Iabloko e a oposição consentida

Fundado em 1993, o Iabloko é o partido liberal mais antigo da Rússia pós-soviética. Ao longo de sua história, operou dentro de um espectro conhecido como “oposição consentida” pelo Kremlin. Essa dinâmica permitia que a sigla, em teoria, criticasse e se opusesse a certas políticas do presidente Vladimir Putin, mas sempre dentro de limites não explicitados, que agora se tornam dramaticamente evidentes.

O chefe do partido, Nikolai Ribakov, reagiu à decisão em nota, negando veementemente o financiamento externo e reiterando o compromisso da legenda com a busca pela paz com a Ucrânia. Ele afirmou que o Iabloko irá recorrer da sentença dentro do prazo de cinco dias estipulado pelo tribunal, buscando reverter o banimento que impede a participação do partido no próximo pleito legislativo federal, o primeiro desde o início do conflito.

A exclusão do Iabloko contrasta com a postura de outras legendas que se autodenominam de oposição, como o Partido Comunista. Embora formalmente oposto ao governo, o Partido Comunista russo tem sido um defensor da guerra na Ucrânia e frequentemente apoia as propostas governamentais em votações na Duma, a Câmara baixa do Parlamento, dominada pelo Rússia Unida.

Cenário eleitoral e o endurecimento político

A ação contra o Iabloko ganhou destaque após a Comissão Eleitoral Central ter surpreendido o cenário político russo ao aprovar 404 candidatos da sigla para disputar cadeiras na Duma. Essa aprovação inicial gerou especulações entre analistas políticos sobre a possibilidade de o Iabloko, mesmo com o apoio à guerra ainda em altos 66% (segundo o independente Centro Levada, o nível mais baixo nos quase quatro anos e meio de conflito), conseguir eleger alguns representantes.

A tarefa, contudo, sempre foi árdua. O sistema político russo é caracterizado pela “ossificação” em torno do Rússia Unida, que atualmente detém 315 dos 450 parlamentares na Duma. O Iabloko, que já teve 45 representantes eleitos em 1995, viu sua influência diminuir drasticamente ao longo dos anos, não elegendo nenhum deputado federal desde 2007, há quatro eleições. Atualmente, possui apenas 5 dos 3.928 deputados em legislativos de regiões russas.

Apesar de sua representação minguada, o Iabloko ainda mantém alguma influência entre a classe média intelectualizada de Moscou e, politicamente, causava incômodo devido à sua posição pacifista. A decisão da Suprema Corte não apenas elimina a última voz anti-guerra legalmente reconhecida nas eleições, mas também sinaliza um aprofundamento da repressão à dissidência em um momento crucial para o país.

Implicações e o futuro da oposição

O banimento do Iabloko é mais um capítulo na progressiva restrição do espaço democrático na Rússia, especialmente desde o início da guerra na Ucrânia. A medida levanta questões significativas sobre a liberdade de expressão e o pluralismo político em um país que se prepara para um pleito legislativo sem qualquer voz institucionalizada que se oponha abertamente ao conflito.

A exclusão do partido pode ter como objetivo consolidar ainda mais o apoio interno à política externa do Kremlin, eliminando qualquer plataforma que possa catalisar o descontentamento, mesmo que minoritário. A menção a um “raríssimo protesto em fren” no contexto da notícia sugere que, apesar da repressão, há focos de resistência que podem ser ainda mais silenciados com a ausência de um canal político legítimo.

A comunidade internacional e observadores de direitos humanos provavelmente verão esta decisão como mais uma evidência do recuo democrático na Rússia, onde a crítica ao governo e à guerra é cada vez mais criminalizada. O futuro da oposição russa, agora sem seu partido liberal mais tradicional nas urnas, permanece incerto e desafiador.

Para aprofundar a compreensão sobre o cenário político russo e seus desdobramentos, acesse notícias e análises da BBC News Brasil sobre a Rússia.

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