Um servidor comissionado da Prefeitura de São Paulo foi exonerado de seu cargo após denúncias de que estaria trabalhando em horário comercial para a pré-campanha de Regina Nunes (MDB), primeira-dama da capital e pré-candidata a deputada estadual. A situação levanta questionamentos sobre a conduta na administração pública e a fiscalização de atividades de funcionários comissionados em períodos eleitorais.
A revelação, inicialmente apurada pela Folha, detalha que o funcionário, contratado para atuar na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, exercia funções de “videomaker” para as redes sociais da pré-candidata, enquanto recebia salário do município. A exoneração ocorreu logo após o jornal questionar a prefeitura sobre o caso, adicionando uma camada de urgência e repercussão ao episódio.
O caso e a rápida exoneração
Breno de Souza Santos, nomeado em julho de 2025 como assessor na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, tinha como atribuição uma jornada de 40 horas semanais, com um salário de R$ 5.637 mensais. No entanto, a reportagem da Folha acompanhou por uma semana as publicações de Breno em suas redes sociais, que frequentemente mostravam seu dia a dia acompanhando Regina Nunes em diversas agendas, muitas delas em horário comercial.
As evidências digitais indicavam que Breno estava dedicado à produção de conteúdo para a pré-campanha da primeira-dama, gravando vídeos para suas plataformas. Após o contato da imprensa com a assessoria da prefeitura na terça-feira (12), a exoneração de Breno de Souza Santos foi publicada no Diário Oficial do município na quarta-feira (13), sinalizando uma resposta rápida da gestão municipal à denúncia.
Contradições e registros digitais
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo defendeu-se, afirmando que o servidor “exerceu as atividades de sua atribuição, atuando em trabalhos externos e internos de edição de vídeos, publicações em redes sociais e demais atividades do setor de comunicação da pasta”. A gestão municipal negou categoricamente que Breno tenha prestado serviços para a primeira-dama enquanto esteve lotado na secretaria.
A prefeitura também apresentou um documento de processo interno que indicava um pedido de exoneração de Breno datado do dia 7, com efeito a partir da segunda-feira (11). Contudo, os registros obtidos pela reportagem nas redes sociais do próprio servidor e de Regina Nunes contradizem essa versão. As publicações mostram Breno trabalhando ativamente para a pré-campanha durante todos os dias da semana anterior à sua exoneração, período em que, segundo os próprios documentos da prefeitura, ele ainda era funcionário público.
Além disso, foram identificados ao menos três vídeos nas redes sociais da primeira-dama e de seus aliados nos quais Breno aparece em seu entorno, trabalhando como videomaker, nos últimos meses. Entre os eventos registrados estão a filmagem de Regina durante um evento de distribuição de ovos de Páscoa em 4 de abril, a presença em uma transmissão ao vivo quatro semanas antes, e o acompanhamento da primeira-dama em uma comemoração da torcida Gaviões da Fiel em 10 de fevereiro. Em 4 de abril, Breno participou de uma reunião com a equipe da primeira-dama e, no dia seguinte, gravou conteúdo com Regina em um abrigo de animais em Itapecerica da Serra, reforçando a atuação contínua em atividades de pré-campanha.
Implicações éticas e legais na administração pública
O caso de Breno de Souza Santos ilustra uma questão recorrente no cenário político brasileiro: a linha tênue entre a atuação de servidores públicos e o engajamento em campanhas eleitorais. A legislação eleitoral e os princípios da administração pública, como a moralidade e a impessoalidade, proíbem que recursos públicos, incluindo o tempo de trabalho de servidores pagos com dinheiro do contribuinte, sejam utilizados em benefício de candidaturas políticas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo, estabelece diretrizes claras para evitar o uso da máquina pública em campanhas.
A atuação de um servidor comissionado em uma pré-campanha durante o horário de expediente configura um potencial conflito de interesses e uso indevido de recursos públicos. Servidores comissionados, embora de livre nomeação e exoneração, estão sujeitos às mesmas regras éticas e legais que visam garantir a imparcialidade e a probidade na gestão pública. A rápida exoneração de Breno, após a denúncia, pode ser interpretada como uma tentativa da prefeitura de mitigar os impactos da controvérsia, mas não apaga os questionamentos sobre a fiscalização prévia e a conformidade das atividades do servidor.
O cenário político e a pré-campanha de Regina Nunes
Regina Nunes, esposa do prefeito Ricardo Nunes, tem se posicionado como pré-candidata a deputada estadual, com foco na defesa dos animais. A utilização de redes sociais e a produção de conteúdo audiovisual são estratégias comuns e essenciais nas campanhas modernas. No entanto, a forma como esses conteúdos são produzidos e quem os produz, especialmente quando há envolvimento de servidores públicos, torna-se um ponto crítico de escrutínio.
Este episódio ressalta a importância da transparência e da vigilância da imprensa e da sociedade civil sobre as atividades de pré-campanha, que muitas vezes antecedem o período eleitoral oficial e podem ser menos reguladas ou fiscalizadas. A repercussão do caso pode influenciar a percepção pública sobre a gestão municipal e a pré-candidatura de Regina Nunes, especialmente em um contexto de crescente demanda por ética e integridade na política.
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