A crescente popularidade dos smartwatches e outros dispositivos vestíveis (wearables) tem levantado debates importantes sobre seu papel na gestão da saúde pessoal. Enquanto figuras públicas, como o secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., os veem como ferramentas essenciais para que os indivíduos “assumam o controle da própria saúde”, a comunidade médica adota uma postura mais cautelosa, reconhecendo o potencial, mas também as limitações das métricas oferecidas por esses aparelhos.
A visão de Kennedy Jr. de que “todo americano esteja usando um dispositivo vestível dentro de quatro anos” reflete uma tendência global de digitalização da saúde. Pesquisas indicam que cerca de 40% dos americanos já utilizam algum tipo de wearable, com maior adesão entre os mais jovens, saudáveis e preocupados com a forma física. Esses dispositivos prometem um fluxo contínuo de dados, como contagem de passos, frequência cardíaca, qualidade do sono e calorias gastas, que, em teoria, poderiam empoderar os usuários e auxiliar no monitoramento remoto de pacientes.
O potencial dos smartwatches para o monitoramento da saúde
Embora a promessa dos smartwatches seja vasta, a realidade clínica ainda está em fase de adaptação. Médicos como Zahi Fayad, diretor do Instituto de Engenharia Biomédica e Imagem do Hospital Mount Sinai, em Nova York, veem neles uma ferramenta para detectar sinais precoces de doenças e monitorar pacientes à distância. Contudo, ele ressalta que muitas métricas ainda não atingem os padrões médicos rigorosos, e faltam dados que comprovem que o uso desses dispositivos melhora significativamente os resultados de saúde a longo prazo.
Apesar do ceticismo médico, muitos pacientes chegam aos consultórios com dados de seus wearables, buscando respostas para leituras incomuns. Algumas empresas de tecnologia já estão integrando consultas médicas em seus aplicativos, criando uma ponte entre a autogestão da saúde e o acompanhamento profissional. É importante diferenciar os wearables de consumo, disponíveis online, de dispositivos de grau médico, como monitores contínuos de glicose, que são prescritos e seguem padrões rigorosos.
Métricas confiáveis e as que ainda precisam de aprimoramento
Especialistas apontam que algumas métricas dos smartwatches são mais confiáveis e clinicamente úteis do que outras. Erica Spatz, diretora do programa de saúde cardiovascular preventiva da Escola de Medicina de Yale, destaca a capacidade de alguns dispositivos de sinalizar fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca potencialmente perigosa. Um estudo com Apple Watch, por exemplo, mostrou que os alertas de pulso irregular correspondiam à fibrilação atrial em 84% das vezes quando comparados a eletrocardiogramas médicos.
Outras medições valiosas incluem a contagem de passos, que pode indicar o nível de atividade física ou sedentarismo. Estudos associam uma meta de cerca de 7.000 passos diários a um menor risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e demência. Padrões básicos de sono, como horário de dormir e acordar e duração total, também são considerados úteis, pois a consistência e a duração do sono são cruciais para a saúde geral, conforme Cheri Mah, professora-adjunta no Centro de Medicina do Sono de Stanford. Pesquisas comparando wearables populares com estudos de sono padrão-ouro revelaram uma concordância superior a 90% na distinção entre sono e vigília.
No entanto, métricas como pressão arterial, oxigênio no sangue e estágios do sono ainda não são medidas com precisão pelos wearables de consumo. Spatz também menciona que o VO2 máximo e a variabilidade da frequência cardíaca, embora ofereçam estimativas de condicionamento físico e recuperação, ainda não são decisivos para decisões médicas. Além disso, as pontuações de bem-estar, que agregam múltiplos dados em um número simples (idade biológica, estresse, qualidade do sono), variam entre as empresas, usando algoritmos proprietários. Isso dificulta para os médicos entenderem o que essas pontuações realmente medem e se correspondem a resultados de saúde concretos, segundo Jag Singh, professor da Escola de Medicina de Harvard.
A importância das tendências e os riscos da obsessão por dados
Para extrair o máximo benefício dos smartwatches, Fayad recomenda focar em tendências de longo prazo, em vez de se prender a variações diárias. Uma mudança súbita pode ser relevante se coincidir com sintomas, como palpitações durante um pico de frequência cardíaca. Contudo, uma única leitura incomum é menos indicativa do que uma alteração sustentada ao longo de semanas ou meses. A mesma cautela se aplica ao comparar dados pessoais com os de outras pessoas, já que há grande variabilidade individual em métricas como variabilidade da frequência cardíaca ou VO2 máximo, mesmo entre indivíduos com níveis de condicionamento físico semelhantes, como aponta Singh.
Se um wearable serve como motivação para aumentar a atividade física ou ajuda a identificar que o álcool afeta negativamente a frequência cardíaca em repouso, ele cumpre um papel positivo. No entanto, o uso compulsivo e a preocupação excessiva com os dados podem ser prejudiciais. Uma pesquisa recente revelou que cerca de 30% das pessoas que monitoram o sono correm risco de ortossonia, uma fixação não saudável em ter um sono “perfeito”. Nesses casos, a sensação de bem-estar ao acordar pode ser um guia mais confiável do que os números do dispositivo, conforme Ezekiel J. Emanuel, especialista em políticas de saúde da Universidade da Pensilvânia. Em situações de ansiedade gerada pelos dados, a interrupção do rastreamento ou o uso do wearable apenas para objetivos específicos e de curto prazo podem ser soluções.
O Diário Global segue atento às inovações e debates no campo da saúde e tecnologia. Continue acompanhando nossas análises aprofundadas e reportagens contextualizadas para se manter informado sobre os temas que impactam sua vida e a sociedade. Nosso compromisso é com a informação relevante e de qualidade em diversas áreas.
