A busca por auxílio terapêutico é uma jornada pessoal e, muitas vezes, longa. No entanto, quando essa jornada se estende por décadas dentro de um relacionamento, e os resultados esperados não se manifestam, surgem dilemas complexos que afetam não apenas o indivíduo em tratamento, mas também seu parceiro. Essa é a realidade enfrentada por uma leitora do The New York Times, casada há 38 anos, que compartilhou sua profunda frustração com a terapeuta Lori Gottlieb após 17 anos de psicoterapia de seu marido sem mudanças perceptíveis.
A situação levanta questões cruciais sobre as expectativas em relação à terapia, o impacto financeiro e emocional no casamento, e a própria definição de “progresso” no contexto de condições crônicas. O caso, embora específico, ecoa as preocupações de muitos casais que navegam pelas complexidades da saúde mental e do suporte mútuo ao longo da vida.
O dilema da terapia de longa duração em casamentos
A leitora descreve um cenário de esgotamento. Seu marido, de 87 anos e em boa saúde física, tem feito terapia semanal presencial por 17 anos, e agora, há dois anos, continua o tratamento de forma remota. Os motivos iniciais eram ansiedade generalizada, procrastinação profunda e uma aparente indiferença em relação à obtenção de uma renda razoável. Ela suspeita de Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH) sem hiperatividade, um diagnóstico que hoje é reconhecido como TDAH, tipo predominantemente desatento.
Durante anos, a esposa tolerou a situação, assumindo as responsabilidades financeiras e domésticas, enquanto a terapeuta anterior do marido (que também a atendeu) mantinha uma postura leniente, aceitando apenas o reembolso do convênio, que muitas vezes não era solicitado. Com a nova terapia, embora o marido agora envie os pedidos de reembolso, o custo ainda é considerado considerável pela leitora, que se sente sobrecarregada e ressentida. Ela quer estabelecer um limite de mais um ano para o tratamento.
Além do custo: a percepção de progresso na terapia em casamento
A terapeuta Lori Gottlieb, em sua resposta, aborda as três principais preocupações da leitora: o custo, a falta de progresso e o peso das responsabilidades. Sobre o aspecto financeiro, Gottlieb questiona se o custo é realmente proibitivo para o casal ou se a frustração reside na prioridade dos gastos. Se o marido acredita que podem pagar, mas a esposa preferiria usar o dinheiro de outra forma, a questão se torna um debate sobre prioridades financeiras no casamento, exigindo uma conversa franca entre eles.
A percepção de “progresso” é outro ponto central. Para a leitora, progresso significa uma “mudança no comportamento” do marido. No entanto, Gottlieb lembra que os déficits de atenção, que a esposa atribui à raiz dos comportamentos frustrantes, são características de um transtorno vitalício como o TDAH. Nesses casos, a terapia pode não visar a “cura” ou a eliminação completa dos sintomas, mas sim o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e manejo. A terapeuta sugere que, se o marido ainda não o fez, consultar um psiquiatra para explorar a possibilidade de medicação para o TDAH pode ser um limite razoável a ser estabelecido.
Os múltiplos propósitos da psicoterapia
Gottlieb destaca que os objetivos terapêuticos podem variar amplamente. Enquanto a leitora pode ter buscado crescimento e mudança concreta em sua própria terapia, o marido pode estar buscando algo diferente: regulação emocional, redução da ansiedade, uma estrutura para lidar com o dia a dia, ou um espaço seguro e privado para processar aspectos importantes da vida, como o envelhecimento e a finitude. A recusa dele em falar sobre a terapia pode ser uma forma de proteger esse espaço, antecipando que a esposa considerará seus objetivos “supérfluos”.
É significativo que, após uma pausa na terapia anterior, o marido tenha sentido a necessidade de retornar ao tratamento. Isso sugere que ele encontra algum benefício, mesmo que não seja a “mudança de comportamento” que a esposa espera. A terapeuta sugere que a leitora tente reconhecer as pequenas mudanças, como o fato de ele agora enviar os pedidos de reembolso, o que pode ajudar a ampliar sua perspectiva e ver a situação em um espectro mais amplo do que apenas “nenhuma mudança”.
A sobrecarga e a busca por soluções
A frustração da leitora com a sobrecarga na gestão da casa é totalmente válida e precisa ser endereçada. Gottlieb sugere que, em vez de focar exclusivamente em interromper a terapia do marido, o casal explore outras soluções práticas para aliviar o fardo da esposa. Isso poderia incluir a contratação de um assistente para ajudar nas tarefas domésticas ou na organização financeira. Essa abordagem permitiria à esposa obter o alívio necessário sem interferir diretamente no processo terapêutico do marido, que, para ele, pode ser um pilar fundamental de suporte emocional e psicológico.
A comunicação aberta e a negociação de prioridades são essenciais para encontrar um equilíbrio que respeite as necessidades de ambos os parceiros em um relacionamento de longa data. A terapia de casal, inclusive, poderia ser um caminho para abordar essas questões de forma conjunta.
Para mais informações sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), consulte fontes confiáveis como a Associação Brasileira de Déficit de Atenção.
O caso dessa leitora do The New York Times ilustra a complexidade dos relacionamentos de longa data, onde as necessidades individuais e as dinâmicas de casal se entrelaçam com questões de saúde mental e financeiras. A resposta da terapeuta Lori Gottlieb oferece uma perspectiva valiosa, incentivando a reflexão sobre as expectativas da terapia e a busca por soluções que aliviem a sobrecarga do parceiro, sem necessariamente interromper um processo que pode ser vital para o outro.
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