Quase dois meses após os devastadores terremotos que atingiram a Venezuela em junho, o país enfrenta um drama humanitário agravado pela incerteza: o número exato de desaparecidos permanece desconhecido. Enquanto as autoridades divulgam balanços de mortos e feridos, a cifra daqueles que ainda estão sob os escombros ou sem contato oficial é um mistério, deixando milhares de famílias em um limbo doloroso e uma nação sem um panorama claro da real extensão da tragédia.
A catástrofe, que resultou em mais de 6.300 mortos segundo o balanço oficial mais recente, e 6.125 óbitos confirmados até 4 de agosto, desencadeou uma mobilização de voluntários e socorristas que, incansavelmente, vasculham as ruínas. Em Caraballeda, no estado costeiro de La Guaira, uma das localidades mais afetadas, a busca por entes queridos é uma corrida contra o tempo e a esperança, muitas vezes sem o apoio de dados oficiais que poderiam direcionar os esforços.
A lacuna de informações oficiais e o desafio demográfico
Desde 24 de junho, dia dos terremotos, o governo venezuelano tem sido notavelmente silencioso sobre o número de desaparecidos. Embora boletins oficiais detalhem mortes, atendimentos hospitalares, casas afetadas e até toneladas de entulho removido, a ausência de dados sobre aqueles que ainda não foram localizados é uma lacuna que impede a compreensão completa da crise. Essa falta de transparência não é um fenômeno isolado, refletindo uma tendência histórica das autoridades em relutar na divulgação de estatísticas, mesmo em momentos de grande comoção nacional.
A dificuldade em estimar o número de vítimas é exacerbada por um problema estrutural: o último censo populacional da Venezuela remonta a 2011. Com mais de uma década sem um levantamento demográfico atualizado, qualquer projeção sobre a população nas áreas atingidas ou o número de desaparecidos torna-se uma missão quase impossível. A crise econômica e política que o país enfrenta desde 2013 contribuiu para a ausência de um novo censo, deixando o país sem ferramentas essenciais para gerenciar desastres de tamanha magnitude.
Estimativas conflitantes e o clamor por respostas
Diante do vácuo de informações oficiais, diversas estimativas surgiram, mas com grandes discrepâncias. Inicialmente, Tom Fletcher, da ajuda humanitária da ONU, estimou cerca de 50 mil desaparecidos, número que uma fonte diplomática anônima posteriormente considerou um erro, indicando que o real estaria acima de 10 mil. As declarações de autoridades venezuelanas também adicionaram mais camadas de contradição.
Em 30 de junho, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, declarou que 30 mil pessoas estavam nas áreas afetadas, com 19 mil resgatadas e 2 mil mortos, o que implicaria cerca de 9 mil desaparecidos e um total de 11 mil mortos. No final de julho, José Alejandro Terán, governador de La Guaira, mencionou cerca de 6 mil mortos e 1.338 desaparecidos, conforme um registro local. Essa disparidade de números, sem uma consolidação oficial, apenas intensifica a angústia das famílias e a confusão pública.
A busca incansável por um adeus digno
Em meio à incerteza, a determinação de voluntários e familiares é um testemunho da resiliência humana. Em Caraballeda, pessoas como Víctor Morales continuam a cavar entre os escombros. Com lágrimas no rosto, ele busca o corpo do neto de 11 anos, após ter resgatado o da neta, de 13. “Nós não vamos desistir, vamos continuar. Estamos aqui desde o primeiro dia, cavando por aqui, abrindo buracos até o térreo, procurando, retirando escombros”, afirma o carpinteiro de 50 anos, que descansa sob uma lona, sob o sol caribenho.
O desejo de dar um sepultamento digno aos entes queridos é um motor poderoso. Fernando Bencomo, um policial de 50 anos, testemunhou a retirada do corpo de seu filho, Fernando Antonio Bencomo, um estudante de 21 anos, e de seu cachorro, após 40 dias de busca. “Ele tinha toda uma vida pela frente. Desde o primeiro dia estou aqui procurando; não queria parar antes que ele pudesse descansar em paz”, lamentou. A dor da perda é agravada pela possibilidade de que alguns corpos nunca sejam recuperados, como advertiu Esteban Chala, socorrista argentino com experiência em grandes catástrofes.
A resiliência da comunidade e as iniciativas cidadãs
Diante da inação oficial, a sociedade civil venezuelana se organizou. Diversos sites foram criados por moradores e voluntários para tentar localizar as vítimas, preenchendo a lacuna deixada pelo governo. Plataformas como “Venezuela Te Busca”, “Desaparecidos Terremoto Venezuela” e “Venezuela Reporta” registram dezenas de milhares de pessoas declaradas como desaparecidas ou sem contato, com estimativas que variam de 17 mil a 41 mil. Essas iniciativas, embora não oficiais, demonstram a capacidade da comunidade de se mobilizar e buscar soluções em momentos de crise, utilizando a tecnologia para tentar trazer alguma clareza e esperança.
A tragédia dos terremotos na Venezuela não é apenas uma questão de números, mas um reflexo profundo de uma crise humanitária e institucional. A falta de dados confiáveis e a dificuldade em localizar os desaparecidos prolongam o sofrimento das famílias e dificultam a reconstrução. O Diário Global continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes, oferecendo informação aprofundada e contextualizada para que você, leitor, esteja sempre bem informado sobre os fatos que moldam o Brasil e o mundo.

