A poeira densa e o calor sufocante de La Guaira, na Venezuela, tornaram-se o cenário de uma luta diária pela memória e pelo luto. Em meio aos destroços que um dia foram um lar, dois irmãos adolescentes, Winder Delfín, de 17 anos, e Deivi, de 15, protagonizam uma busca comovente e exaustiva. Há quase um mês, desde que dois terremotos históricos devastaram a região em 24 de junho de 2026, eles escavam incansavelmente os escombros, movidos pela esperança de encontrar os corpos da mãe, Yusmani, de 35 anos, e do irmão mais novo, Moissés, de 10.
A cena é um retrato da resiliência humana diante da catástrofe e, ao mesmo tempo, um doloroso espelho da fragilidade institucional de uma nação. Com as mãos sangrando e os pulmões revestidos de poeira, Winder e Deivi, ao lado do pai, Deivid Delfín, e do padrasto, Giovanni Berroterán, avançam onde o Estado, debilitado por anos de má gestão, corrupção e sanções internacionais, tem sido largamente ausente. A descoberta de um vestido florido, pertencente à avó Carmen, de 69 anos, no 25º dia de escavação, reacendeu a chama da esperança em um túnel que eles próprios cavaram, perfurando 12 andares desabados.
A busca incansável em La Guaira: uma luta contra o tempo e a escassez
A história de Winder e Deivi é uma entre milhares em La Guaira, o estado venezuelano mais atingido pelos sismos. O número oficial de mortos, 5.398, pode chegar a 10 mil, segundo estimativas do governo. Diariamente, do amanhecer ao anoitecer, sobreviventes se espalham pelas montanhas de entulho, usando picaretas, marretas e, no caso dos irmãos, até uma faca de cozinha, compartilhadas entre vizinhos. Eles são as “toupeiras”, como são chamados, por sua capacidade de se enfiar em espaços minúsculos, iluminando o caminho com celulares e lanternas de cabeça, reportando aos adultos acima.
A família morava no apartamento 107, no primeiro andar de um prédio de habitação popular de 12 andares. No dia dos terremotos, os irmãos mais velhos estavam em um parque aquático. Ao retornarem, o edifício havia desaparecido. Desde então, a busca se tornou a única rotina. Levou três semanas para martelar e perfurar os 12 andares que se compactaram. No 24º dia, Deivi abriu um quarto buraco e alcançou a sala de estar, encontrando os shorts de Moissés e uma pequena camiseta branca. O pai, Deivid, um barbeiro de 44 anos, encostou a peça no rosto e chorou, um gesto de luto e desespero.
O cenário de uma nação em crise: o Estado ausente na tragédia
Em um contexto diferente, o trabalho de resgate seria conduzido por equipes profissionais e bem equipadas. No entanto, a realidade da Venezuela, marcada por uma profunda crise econômica e social, dita outro ritmo. As capacidades do Estado, fragilizadas por anos de má gestão, corrupção e sanções dos Estados Unidos, resultaram em uma resposta oficial insuficiente. Enquanto civis e voluntários se dedicam à exaustiva tarefa de recuperar corpos, soldados são vistos marchando pelas ruas, varrendo poeira ou recebendo alimentos de grupos de ajuda humanitária estrangeiros.
Essa disparidade sublinha a dimensão da tragédia. A população, já castigada pela escassez de recursos básicos e pela hiperinflação, agora enfrenta a dor da perda e a árdua tarefa de reconstruir sem o apoio adequado. A solidariedade de voluntários, como o grupo cristão de Valencia que chegou para ajudar a família Delfín, é um alento, mas não substitui a estrutura que um governo deveria oferecer em momentos de calamidade. A crise venezuelana, que já forçou milhões a migrar, agora se manifesta também na incapacidade de responder eficazmente a um desastre natural de tamanha magnitude.
A dor e a resiliência: o impacto humano dos terremotos na Venezuela
A busca pelos corpos é mais do que um ato de luto; é uma forma de processar a dor e encontrar algum tipo de fechamento. Como observou a psicóloga voluntária Obtavio Guerra, que tem aconselhado dezenas de sobreviventes, a realidade emocional da tragédia ainda não veio à tona. A busca incessante por entes queridos funciona como uma distração, uma maneira de se manter ocupado, adiando o impacto psicológico completo. “Está adormecida, como uma onda que pode chegar a qualquer momento”, disse ela, descrevendo o luto que ainda está por vir.
A união do pai e do padrasto, trabalhando juntos para encontrar a mulher que ambos amaram, é um testemunho da força dos laços humanos. Deivid Delfín expressou sua preocupação com o perigo que seus filhos enfrentam, mas admitiu não saber como afastá-los, sentindo-se perdido diante de suas perguntas sobre o que aconteceu. Essa busca, embora perigosa e dolorosa, é a manifestação de um amor que transcende a devastação, um esforço para dar dignidade aos mortos e, talvez, encontrar algum sentido em meio ao caos.
Um futuro incerto: a reconstrução e o luto em La Guaira
A recuperação dos corpos da avó e, na sequência, a esperança de encontrar a mãe e o irmão mais novo, representa um passo crucial no processo de luto para Winder e Deivi. A família implorou aos operadores de máquinas que não perturbassem seu trabalho, desejando realizar a extração dos corpos por conta própria, um ato final de cuidado e despedida. A imagem dos homens golpeando o concreto e dos meninos carregando os pedaços quebrados para fora é um símbolo da resiliência e da determinação de uma comunidade que se recusa a ser vencida pela adversidade.
Enquanto La Guaira tenta se reerguer, a história desses adolescentes ecoa a luta de milhares de venezuelanos. A tragédia dos terremotos não é apenas um desastre natural, mas um evento que expõe as profundas cicatrizes de uma nação em crise, onde a solidariedade e a coragem individual se tornam a principal força motriz para a superação. A busca por um adeus digno é, para muitos, o primeiro passo em uma longa e incerta jornada de reconstrução, tanto material quanto emocional.
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