Em um encontro de alto nível em Pequim, o líder chinês Xi Jinping proferiu um discurso acalorado contra a “remilitarização” do Japão, dirigindo-se à primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi durante uma cúpula com o ex-presidente americano Donald Trump. O episódio, ocorrido em 24 de maio de 2026, surpreendeu autoridades dos Estados Unidos e marcou o momento de maior tensão nos dois dias de conversas entre os líderes, conforme relatos de sete fontes familiarizadas com o evento.
remilitarização: cenário e impactos
A postura de Xi, descrita como exaltada e agitada ao abordar o tema do Japão, destoou das expectativas, uma vez que a questão não havia sido previamente pautada nas discussões preparatórias para a cúpula. Este incidente sublinha as crescentes fricções na dinâmica geopolítica asiática e as complexas relações entre as potências globais.
A escalada da retórica chinesa e a postura japonesa
A China tem observado com preocupação o aumento dos gastos com defesa do Japão e a crescente assertividade de Tóquio em questões de segurança regional. O discurso de Xi Jinping reflete uma escalada na retórica de Pequim, que vê as ações japonesas como um desvio de sua constituição pacifista pós-Segunda Guerra Mundial e um movimento em direção ao que chama de “neomilitarismo”.
Por outro lado, o Japão justifica seu fortalecimento militar citando a crescente ameaça representada pela China, que desde 2023 é descrita em seus livros brancos de defesa anuais como o “maior desafio estratégico”. A cooperação militar aprofundada entre Pequim e Moscou também é motivo de “séria preocupação” para Tóquio, conforme uma versão preliminar do documento de 2026.
As relações entre China e Japão deterioraram-se drasticamente após declarações de Takaichi em novembro, que considerou um ataque chinês a Taiwan como uma “ameaça existencial” ao Japão, justificando uma possível intervenção militar. Embora não representasse uma mudança formal de política, a fala provocou forte condenação de Pequim, que desde então tem mantido uma série constante de ataques retóricos e medidas concretas, como limites às exportações de terras raras de dupla utilização.
A reação de Trump e a aliança EUA-Japão
Após a repreensão de Xi, Donald Trump respondeu que Tóquio precisava, de fato, adotar uma postura de segurança mais assertiva, mas focou na crescente ameaça da Coreia do Norte. Não ficou claro se Trump mencionou a China, a principal preocupação de segurança do Japão, no mesmo contexto. Essa ambiguidade gerou ansiedade em Tóquio sobre o posicionamento americano.
A aliança EUA-Japão tem sido um pilar da segurança regional, mas Tóquio demonstra nervosismo com o estado dessa parceria. Questões como as tarifas impostas por Trump a aliados no passado e a preocupação de que a dissuasão militar americana contra a China possa ser diluída por outros conflitos, como a guerra com o Irã, contribuem para essa apreensão. Um exemplo recente é o atraso na entrega de 400 mísseis Tomahawk, encomendados pelo Japão em 2024 para sua força de “contra-ataque” contra a China, conforme noticiado pelo Financial Times.
A falta de apoio público de Trump ou de altos funcionários americanos a Takaichi após seus comentários sobre Taiwan também foi um ponto de preocupação. Embora Trump tenha telefonado para a primeira-ministra japonesa em seu voo de volta a Washington, detalhes da conversa não foram divulgados, mantendo a incerteza sobre o alinhamento total dos EUA.
Implicações regionais e a visão de especialistas
Christopher Johnstone, ex-alto funcionário da Casa Branca para o Japão, criticou a “abordagem cáustica” de Xi, afirmando que ela apenas reafirma a busca de Tóquio por autossuficiência em segurança. “A falta de autoconsciência de Xi é notável. Suas próprias ações estão acelerando o surgimento de um Japão muito mais forte”, disse Johnstone.
Ele ressaltou que a retórica anti-Japão da China não encontra apoio além de suas próprias fronteiras, e que Tóquio está fortalecendo laços de segurança com parceiros como Austrália, Filipinas e Coreia do Sul, todos preocupados com uma China agressiva. Essa dinâmica regional complexa indica que a pressão chinesa pode, paradoxalmente, solidificar ainda mais as alianças de segurança na Ásia-Pacífico.
O contexto dos gastos militares
O Ministério das Relações Exteriores da China informou que o Japão aumentou seus gastos militares em 9,7% até 2025, marcando o 14º aumento anual consecutivo. Pequim argumenta que isso “demonstra, mais uma vez, que a máscara de ‘país para a paz’ do Japão está caindo e que o país está deslizando rumo ao neomilitarismo”.
No entanto, é crucial contextualizar esses números. A China, o segundo maior investidor militar do mundo, aumentou seus gastos com defesa em 7,4% no ano passado, atingindo US$ 336 bilhões, o 31º aumento anual consecutivo, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Em comparação, o Japão gastou US$ 62 bilhões. Essa disparidade nos orçamentos militares e a percepção de ameaça mútua alimentam a corrida armamentista na região.
A tensão em torno da remilitarização do Japão e a assertividade chinesa continuam a ser pontos críticos na diplomacia global. O Diário Global segue acompanhando de perto os desdobramentos dessa complexa relação entre as potências asiáticas e seus aliados. Para mais análises aprofundadas sobre política internacional e seus impactos, continue navegando em nosso portal, que oferece informação relevante, atual e contextualizada.
