Morre Tung Chee-hwa, primeiro chefe do Executivo de Hong Kong após retorno à China

Morre Tung Chee-hwa, primeiro chefe do Executivo de Hong Kong após retorno à China

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Tung Chee-hwa, o primeiro chefe do Executivo de Hong Kong após a histórica transferência do território do Reino Unido para a China, faleceu na terça-feira (8), aos 89 anos. A notícia foi confirmada pelo South China Morning Post, citando um comunicado de seu gabinete, embora a causa da morte não tenha sido divulgada. Sua partida marca o fim de uma era para uma figura central na complexa transição de Hong Kong, um período que moldou profundamente a relação da cidade com Pequim e seu futuro sob o princípio de “um país, dois sistemas”.

O ex-magnata do setor marítimo assumiu a liderança em 1º de julho de 1997, prometendo preservar o modo de vida, o sistema econômico livre e aberto, o Estado de Direito e construir uma sociedade mais democrática em Hong Kong. Seu mandato, no entanto, foi marcado por desafios significativos e tensões crescentes, que culminaram em crises políticas e revelaram os limites da autonomia prometida ao território.

A transição de Hong Kong e o princípio “um país, dois sistemas”

A nomeação de Tung Chee-hwa em dezembro de 1996, por um comitê majoritariamente pró-Pequim, simbolizou o início de uma nova fase para Hong Kong, após mais de 150 anos de domínio colonial britânico. O princípio de “um país, dois sistemas” foi concebido para permitir que Hong Kong mantivesse um alto grau de autonomia, incluindo seu próprio sistema legal, moeda e liberdades civis, enquanto se reintegraria à China.

Em seu discurso de posse, Tung expressou o compromisso de manter Hong Kong como uma cidade vibrante e internacional. Contudo, sua falta de experiência política prévia e as crescentes aspirações democráticas dos habitantes de Hong Kong logo o colocaram em rota de colisão com as expectativas de Pequim de aumentar seu controle sobre o centro financeiro internacional.

A controvérsia do Artigo 23 e a crise política

O momento mais crítico do governo de Tung ocorreu em 2003, quando ele e sua secretária de Segurança, Regina Ip, tentaram aprovar o Artigo 23 da Lei Básica de Hong Kong. Essa proposta de lei de segurança nacional visava abranger crimes como traição e sedição, além de ampliar os poderes da polícia. A iniciativa foi amplamente interpretada como uma tentativa de Pequim de interferir nas liberdades civis e na autonomia de Hong Kong.

A reação pública foi imediata e massiva. Em 1º de julho de 2003, meio milhão de pessoas foram às ruas de Hong Kong, muitas vestindo preto em sinal de luto pela ameaça às suas liberdades. A magnitude do protesto forçou Tung a recuar e arquivar o projeto de lei. Esse episódio marcou um ponto de virada, intensificando as tensões entre os democratas locais e o governo central chinês, e serviu de prelúdio para os grandes movimentos pró-democracia que eclodiriam em 2014 e 2019.

Curiosamente, o controverso projeto de lei baseado no Artigo 23, que levou à renúncia de Tung em 2005, acabou sendo aprovado em março de 2024 por uma legislatura predominantemente pró-Pequim, em um cenário político drasticamente diferente.

Legado, relações internacionais e críticas

Nascido em Xangai em julho de 1937, Tung Chee-hwa era herdeiro da Orient Overseas Container Line, um império de transporte marítimo fundado por seu pai. Sua formação incluiu estudos na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e trabalho na General Electric nos Estados Unidos, antes de se juntar à empresa familiar. Essas experiências lhe renderam uma vasta rede de contatos internacionais.

Tung manteve relações estreitas com líderes chineses, como Jiang Zemin, e também com a família Bush nos Estados Unidos, acompanhando Xi Jinping em visitas aos EUA antes e depois de ele se tornar líder da China. Após deixar o cargo de chefe do Executivo de Hong Kong, ele continuou ativo na política, sendo nomeado vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, o principal órgão consultivo político do país.

No entanto, sua imagem de estadista e ponte entre China e EUA foi abalada à medida que as relações bilaterais se deterioravam. Sua organização, a China-U.S. Exchange Foundation, que concedia bolsas a universidades americanas e buscava estabelecer relações com figuras influentes em Washington, foi criticada em um relatório de 2018 da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China por seu “envolvimento em operações de influência” ligadas ao governo chinês.

A visão de Tung sobre os protestos e o futuro de Hong Kong

Nos últimos anos de sua vida pública, Tung Chee-hwa tornou-se uma voz cada vez mais contundente contra os movimentos pró-democracia em Hong Kong. Durante os grandes protestos de 2019, ele descreveu os manifestantes como “perturbadores anti-China” que haviam colocado a segurança nacional “gravemente” em risco. Essa postura refletia a crescente preocupação de Pequim com o que considerava tentativas de minar a soberania nacional.

O legado de Tung Chee-hwa é complexo, marcado pela tentativa de equilibrar as promessas de autonomia de Hong Kong com as demandas de Pequim. Sua morte ocorre em um momento em que Hong Kong vê suas liberdades e seu sistema político transformados, com a aprovação final do Artigo 23 e um controle cada vez maior da China continental sobre o território.

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