O número de brasileiros que buscam apoio para deixar Portugal e retornar ao seu país de origem registrou um aumento significativo, conforme dados recentes da Organização Internacional para Migrações (OIM), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). Nos primeiros sete meses deste ano, a quantidade de pedidos de auxílio subiu 52% em comparação com o mesmo período do ano anterior, um indicativo claro de que o outrora idealizado “sonho português” tem se transformado em desilusão para muitos.
O programa, denominado Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração, oferece suporte a imigrantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, independentemente de sua situação migratória ou região de residência em Portugal. A escalada nos números, publicada em 14 de setembro de 2026, acende um alerta sobre as crescentes dificuldades enfrentadas pela comunidade brasileira no país europeu.
Crescimento alarmante nos pedidos de retorno
Desde sua reformulação em 2024, o programa de retorno voluntário tem observado uma tendência de alta constante. Em todo o ano de 2024, 432 brasileiros se inscreveram para receber o apoio. Contudo, apenas nos primeiros sete meses deste ano, esse volume foi superado, com 470 pedidos de ajuda já registrados. Essa aceleração é ainda mais evidente na média mensal de solicitações: enquanto em 2025 a OIM registrava uma média de 44 pedidos de brasileiros por mês, neste ano o número saltou para 67, representando o aumento de 52%.
Embora o programa atenda a imigrantes de diversas nacionalidades, como Venezuela, Sri Lanka e Moçambique, os brasileiros se destacam de forma desproporcional. Eles constituem a maior comunidade estrangeira em Portugal, representando cerca de 30% do total de imigrantes, mas são responsáveis por impressionantes 80% de todos os pedidos de retorno. A situação é ainda mais grave quando se observa a participação de crianças: quase todas as crianças que fazem parte do programa são brasileiras. No ano passado, 85 crianças regressaram ao Brasil com esse apoio oficial, evidenciando que famílias inteiras estão desistindo de sua vida em Portugal.
Os desafios por trás da desilusão em Portugal
As narrativas de decepção com a vida em Portugal tornam-se cada vez mais comuns e abrangem diversos perfis. Entre os que buscam o retorno, há aqueles que chegaram de forma irregular e enfrentaram imensas dificuldades para conseguir emprego e regularizar sua documentação. No entanto, a desilusão não se restringe apenas a esse grupo.
Muitos brasileiros que emigraram com visto e até mesmo com um emprego garantido acabam se deparando com uma realidade dura: o alto custo de vida e, principalmente, os preços exorbitantes da moradia. Essa disparidade entre a expectativa e a realidade financeira leva muitos a reconsiderar sua permanência, optando por voltar ao Brasil em busca de melhores condições ou, ao menos, de um custo de vida mais acessível.
O programa de apoio e suas condições
O Apoio ao Retorno Voluntário da OIM oferece um suporte prático para a concretização do retorno. O pacote inclui a compra da passagem aérea para o país de origem e uma ajuda de custo de € 70 (equivalente a aproximadamente R$ 415) para despesas durante a viagem. Tanto a passagem quanto o valor em dinheiro são entregues pessoalmente por um funcionário do programa no dia do embarque.
Apesar da oferta, uma parcela significativa dos inscritos não completa o processo, com a taxa de concretização do retorno girando em torno da metade dos pedidos. Isso se deve a alguns obstáculos importantes. Primeiramente, é necessário comprovar a vulnerabilidade econômica, demonstrando que o imigrante não possui meios próprios para arcar com os custos da viagem de volta. Além disso, e talvez o fator mais decisivo, é que quem participa do programa fica impedido de entrar em Portugal e em qualquer outro país do Espaço Schengen por um período de três anos. Para muitos, o “sonho português” pode ter se desfeito, mas a esperança de viver em outro país europeu persiste. Por isso, alguns preferem suportar as dificuldades por mais tempo, economizar e se reorganizar por conta própria para poder, futuramente, tentar a vida em outro destino dentro da Europa.
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