Oeste, deixou de figurar entre as principais instituições de ensino superior federal (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo )

Ensino superior no Brasil: desafios na qualidade e retenção de estudantes

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O ensino superior brasileiro enfrenta um paradoxo complexo: enquanto o acesso à universidade tem sido ampliado nas últimas décadas, os resultados em termos de qualidade da formação e retenção de estudantes permanecem aquém do esperado. Dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelam desafios estruturais profundos que comprometem a competitividade do país, não apenas em comparação com nações desenvolvidas, mas também com outros países da América Latina.

A análise dos indicadores internacionais aponta para uma realidade incômoda que exige atenção urgente. O Brasil, apesar de seus esforços para democratizar o acesso à educação superior, parece falhar em transformar essa oportunidade em formação efetiva, gerando preocupações sobre a capacidade do país de preparar profissionais qualificados para o futuro.

Acesso ampliado versus baixa conclusão: um paradoxo nacional

Um dos sinais mais alarmantes destacados pela OCDE é a persistente baixa taxa de conclusão e a alta evasão no ensino superior. O relatório Education at a Glance 2025 indica que cerca de 25% dos estudantes brasileiros abandonam a graduação ainda no primeiro ano, um índice que é praticamente o dobro da média de 13% observada nos países membros da OCDE. Esse problema de retenção tem sido uma constante ao longo das últimas décadas, evidenciando uma falha sistêmica em manter os alunos engajados e progredindo em seus cursos.

O impacto direto desse fenômeno é que apenas 24% dos brasileiros na faixa etária entre 25 e 34 anos possuem diploma de ensino superior. Esse número representa menos da metade da média de 49% registrada nos países da OCDE, sublinhando que, embora o acesso tenha crescido, a transformação desse acesso em formação efetiva ainda é um gargalo significativo. A questão central que emerge é: por que os alunos não permanecem no sistema?

Investimento e eficiência: onde o Brasil falha?

Uma análise superficial poderia atribuir o desempenho insatisfatório do ensino superior brasileiro à falta de recursos. No entanto, os dados da OCDE contradizem essa percepção. O Brasil investe aproximadamente 4,4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, um patamar que se alinha à média dos países da organização. Da mesma forma, o gasto anual por estudante, em torno de US$ 15.600, também se mostra compatível com a média internacional.

Essa constatação sugere que o problema não reside no volume de investimento, mas sim na sua qualidade e eficiência. O país se depara com um paradoxo: investe-se relativamente bem, mas os resultados entregues são insuficientes. A forma como os recursos são aplicados e a gestão do sistema educacional parecem ser os pontos críticos que impedem a conversão do investimento em melhor desempenho acadêmico e profissional.

A expansão do setor privado e EAD e suas consequências

Parte dessa distorção na eficiência do investimento pode ser explicada pela maneira como o ensino superior se expandiu no Brasil nas últimas décadas. O crescimento foi impulsionado, em grande parte, pelo setor privado e pela modalidade de educação a distância (EaD). Atualmente, 88% das instituições de ensino superior são privadas, concentrando cerca de 78% das matrículas, o que corresponde a 9,4 milhões de estudantes, conforme o Censo da Educação Superior de 2024.

Essa expansão acelerada, embora tenha ampliado o acesso, trouxe consigo desafios consideráveis. O EaD, que se tornou um pilar para a inclusão, também se transformou no epicentro da evasão, registrando taxas superiores a 40%. Além disso, a relação entre alunos e professores revela uma disparidade marcante: enquanto nas instituições públicas há, em média, 10 alunos por docente (abaixo da média da OCDE), nas privadas esse número salta para 62 alunos por professor, muito acima da média internacional de 18.

Essa diferença não é meramente estatística; ela reflete modelos pedagógicos distintos e aponta para a fragilidade da mediação educacional, especialmente nos primeiros anos de formação, que são cruciais para a retenção dos estudantes. Mesmo no setor público, onde a relação aluno-professor é mais favorável, a qualidade acadêmica não é automaticamente garantida, mas o acompanhamento próximo e o suporte pedagógico são reconhecidos como fatores centrais para a permanência e o sucesso dos alunos.

Desafios regulatórios e o futuro da formação brasileira

Diante desse cenário, o novo marco regulatório do ensino a distância, estabelecido pelo Decreto 12.456/2025, surge como uma tentativa de resposta. No entanto, sua efetividade ainda é incerta, uma vez que as regras seguem em fase de implementação e a metodologia de avaliação plena ainda não foi definida. Um certo ceticismo já começa a se consolidar antes mesmo que seus efeitos possam ser medidos.

A baixa qualidade da formação compromete seriamente a capacidade do Brasil de formar profissionais produtivos, inovadores e aptos a gerar valor, seja no mercado de trabalho, na criação de novos negócios ou no desenvolvimento tecnológico. O país envelhece como nação, mas não avança na mesma velocidade em sua capacidade produtiva. Esse descompasso impõe limites claros ao crescimento econômico e à inserção competitiva do Brasil no cenário global.

O desafio atual não se restringe a ampliar o acesso ao ensino superior, mas sim a garantir que ele resulte em uma formação de qualidade. Caso contrário, o Brasil continuará investindo recursos significativos para obter resultados insuficientes, adiando, mais uma vez, a construção de um futuro mais próspero e competitivo.

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