Em um marco significativo para a saúde pública brasileira, o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a disponibilizar o teste genético para a identificação de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, que indicam uma predisposição hereditária aumentada ao câncer de mama. A medida, estabelecida por uma portaria publicada nesta quarta-feira (13) no Diário Oficial da União, representa um avanço crucial na detecção precoce e na personalização do tratamento da doença no país.
A portaria concede ao SUS um prazo de até 180 dias para iniciar a oferta do sequenciamento genético, que pode influenciar diretamente as decisões terapêuticas das pacientes, incluindo a indicação de cirurgias preventivas, e auxiliar na orientação de familiares que ainda não manifestaram a doença. Este passo é visto por especialistas como fundamental para aprimorar as estratégias de combate ao câncer de mama, uma das maiores preocupações de saúde entre as mulheres.
A Relevância do Teste Genético e Seu Impacto
O teste genético para mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 ganhou notoriedade global em 2013, quando a atriz americana Angelina Jolie revelou publicamente ser portadora da mutação no BRCA1 e ter se submetido a uma mastectomia preventiva. A decisão da artista foi motivada pelo histórico familiar, já que sua mãe e tia faleceram em decorrência do câncer. O caso de Jolie trouxe à tona a importância da genética na predisposição a certos tipos de câncer e impulsionou a discussão sobre as opções de prevenção e tratamento.
No contexto clínico, o resultado positivo para essas mutações pode alterar substancialmente o plano de tratamento de uma paciente já diagnosticada com câncer de mama. Além disso, oferece uma ferramenta valiosa para a prevenção em familiares, permitindo que adotem medidas proativas, como monitoramento mais rigoroso ou, em alguns casos, cirurgias profiláticas. A inclusão do teste no SUS democratiza o acesso a essa informação vital, que antes era restrita a quem podia arcar com os custos da rede particular.
Acessibilidade e o Cenário Econômico do Diagnóstico
Até então, o exame era amplamente difundido apenas em clínicas particulares, onde os custos variavam de R$ 1.000 a R$ 3.000, frequentemente incluindo painéis multigênicos que analisam dezenas de outros genes. A decisão de incorporar o teste ao SUS foi viabilizada pela significativa redução de seu preço ao longo dos anos. Conforme explica o médico Guilherme Novita Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), o valor do teste já chegou a ultrapassar R$ 50 mil e hoje pode ser encontrado por cerca de R$ 1.500 em alguns locais.
Essa queda nos custos, impulsionada pelo avanço tecnológico na área de sequenciamento genético, tornou a inclusão do exame na rede pública uma realidade. A medida é celebrada por especialistas e pacientes, embora alguns apontem que já existem testes no mercado capazes de analisar centenas de outros genes, o que indica um caminho contínuo de aprimoramento a ser percorrido pelo sistema de saúde.
Desafios e Perspectivas Futuras para o SUS
A inclusão do teste genético no SUS é vista como um primeiro passo fundamental, mas não o único, para a democratização do tratamento do câncer de mama no Brasil. Guilherme Novita Garcia ressalta que a medida permitirá ao Ministério da Saúde coletar dados precisos sobre a porcentagem de mulheres com mutação nos genes BRCA no país. Essa informação será crucial para embasar e pressionar o governo a desenvolver novas políticas públicas.
Entre as próximas etapas desejadas pelos especialistas, estão a inclusão de cirurgias preventivas (como a realizada por Angelina Jolie), a reconstrução mamária e a oferta de medicações específicas para pacientes com essas mutações. É importante notar que o risco associado aos genes BRCA1 e BRCA2 também se estende ao câncer de ovário e, em menor grau, a outros tipos de câncer, inclusive em homens, ampliando o impacto potencial desta nova política.
Internacionalmente, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) publicou em 2024 uma diretriz que recomenda o teste genético para mulheres com 65 anos ou menos com diagnóstico recente da doença. Para aquelas com mais de 65 anos, fatores como histórico pessoal ou familiar, ancestralidade, elegibilidade para terapia com inibidores de PARP, câncer de mama triplo-negativo ou sexo masculino ao nascer também podem indicar a necessidade do exame. Mais informações sobre as diretrizes podem ser encontradas em fontes como a ASCO.
Apesar do entusiasmo, há críticas sobre o fato de a rede pública ainda não oferecer a cirurgia preventiva, mesmo com a disponibilização do teste que pode indicá-la. Este é um dos muitos debates que se abrem com a nova portaria, sinalizando que a jornada para um tratamento abrangente e equitativo do câncer de mama no Brasil continua.
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