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Unifesp lança programa “Saindo do Suco” para auxiliar no abandono seguro de anabolizantes

Saúde

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por meio de médicos e pesquisadores do Hospital São Paulo, acaba de lançar uma iniciativa pioneira e crucial para a saúde pública brasileira: o programa “Saindo do Suco”. Com o objetivo de oferecer suporte técnico e sigiloso, a ação visa auxiliar usuários de anabolizantes a interromperem o consumo de hormônios de maneira gradual e segura, minimizando os riscos associados à parada abrupta e evitando recaídas.

A criação do programa ganhou urgência e relevância após a trágica morte do influenciador digital Gabriel Ganley, em 23 de maio, aos 22 anos. Ganley foi vítima de uma cardiomiopatia hipertrófica, uma condição caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco que dificulta o bombeamento de sangue, e cujo uso de esteroides anabolizantes é um fator de risco conhecido e potencializador. O falecimento do jovem gerou grande comoção e acendeu um alerta no universo do fisiculturismo e entre o público em geral sobre os perigos da reposição hormonal para fins estéticos sem acompanhamento médico adequado.

O programa “Saindo do Suco” e o suporte essencial

O “Saindo do Suco” foi concebido para atender uma demanda crescente e muitas vezes invisível: a de indivíduos que desejam parar de usar anabolizantes, mas se veem sem apoio e orientação. A iniciativa é gratuita, sigilosa e está aberta para receber usuários de todo o Brasil, oferecendo uma abordagem técnica para evitar o retorno às drogas anabólicas durante o período de abstinência. Este caráter confidencial é fundamental, dado que o uso de anabolizantes para fins estéticos é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), levando muitos a recorrerem a produtos clandestinos e à automedicação, longe do sistema de saúde formal.

Segundo o endocrinologista Clayton Macedo, responsável pelo programa e membro do Ambulatório de Medicina Esportiva do Hospital São Paulo, as complicações decorrentes da interrupção do uso de anabolizantes sem acompanhamento médico são tão severas e desafiadoras quanto o próprio uso. O corpo, acostumado a uma fonte externa de hormônios, interrompe sua produção natural, e o sistema endócrino precisa de estímulos e, muitas vezes, de medicação para voltar a funcionar adequadamente.

Os riscos do uso e da interrupção abrupta de anabolizantes

Os hormônios desempenham um papel vital no organismo, atuando como mensageiros que regulam funções essenciais como sono, crescimento, metabolismo e fertilidade. Quando há uma injeção externa de hormônios, como a testosterona, para fins estéticos, os níveis no sangue podem disparar. Enquanto um homem adulto saudável apresenta níveis de testosterona entre 500 a 900 nanogramas por decilitro de sangue, usuários de anabolizantes podem atingir valores de até 2.000, dependendo da dose.

Esses níveis artificialmente elevados podem, de fato, proporcionar aumento da potência sexual, disposição, vigor físico e crescimento muscular acelerado. No entanto, o custo para a saúde é altíssimo, elevando drasticamente o risco de condições graves como trombose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, há uma série de danos colaterais visíveis e permanentes, como calvície precoce, ginecomastia (desenvolvimento de mamas em homens) e infertilidade.

A dependência e o desafio da abstinência

A interrupção abrupta do uso de anabolizantes, por sua vez, desencadeia um quadro de abstinência com sintomas igualmente debilitantes. Usuários podem experimentar fadiga intensa, impotência sexual severa e quadros de depressão profunda. Há relatos alarmantes de indivíduos que desenvolveram ideações suicidas devido à drástica queda nos níveis de testosterona e ao impacto psicológico da abstinência.

O Dr. Clayton Macedo compara a dependência de anabolizantes à de outras drogas, como a cocaína. “Quando o indivíduo vai para um patamar alto de performance, o cérebro não aceita retornar ao nível normal, menos ainda para uma deficiência. É a mesma lógica de drogas como a cocaína. O usuário tem uma dependência que rapidamente se transforma em abstinência”, explica. Essa dificuldade em lidar com a abstinência, aliada ao uso clandestino e à falta de acompanhamento, é o principal motivo pelo qual muitos usuários tentam parar sozinhos, falham e acabam retomando o “suco”, termo popularizado nas redes sociais para se referir aos anabolizantes injetáveis.

O programa da Unifesp surge como uma luz para esses indivíduos, oferecendo um caminho seguro e cientificamente embasado para a recuperação. Ao abordar as etapas sensíveis do abandono de forma técnica, a iniciativa busca quebrar o ciclo vicioso do uso e da abstinência desassistida, promovendo a saúde e o bem-estar de uma população vulnerável.

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