12.mai.26/Reuters

Pressão pela magreza extrema após os 40 anos eleva riscos à saúde feminina

Saúde

A busca incessante por um corpo magro, que teve seu auge nos anos 1990 com ícones como Kate Moss, ressurge com força, impactando não apenas as gerações mais jovens, mas também mulheres maduras. Celebridades como as atrizes Olivia Wilde, Nicole Kidman e Demi Moore têm sido vistas em eventos de gala com silhuetas cada vez mais esguias, refletindo um padrão estético que, para muitas, se torna uma meta a ser alcançada a qualquer custo.

No entanto, essa corrida contra o tempo e as mudanças naturais do corpo após os 40 anos pode expor as mulheres a uma série de riscos significativos à saúde. O envelhecimento traz consigo alterações fisiológicas, como a perda de massa magra e a diminuição da força muscular, que são agravadas por dietas restritivas e inadequadas, aumentando a vulnerabilidade a problemas como desnutrição e osteoporose.

A vulnerabilidade feminina após os 40

O período da meia-idade, especialmente com a chegada da menopausa, é marcado por transformações hormonais e físicas que podem ser desafiadoras. É comum que a gordura comece a se depositar na região abdominal e que o rosto mostre os primeiros sinais da queda de colágeno e o surgimento de rugas. Essas mudanças na autoimagem, somadas à pressão estética intensificada pela era da “magreza extrema 2.0”, criam um cenário de grande vulnerabilidade psicológica para muitas mulheres.

Dados recentes revelam que, no Brasil, mulheres com idade média de 47 anos são as maiores consumidoras de canetas emagrecedoras, conforme levantamento da Folha baseado em informações do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados). Esse dado sublinha a busca por soluções rápidas e, muitas vezes, sem a devida orientação médica, para atender a um ideal de corpo que se distancia da realidade fisiológica da idade.

O psiquiatra Fábio Salzano, vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq), destaca que essa fase da vida é um período de grande instabilidade, tanto física quanto social. A crença cultural de que parecer mais jovem e magra confere mais valor social é um fator potente que impulsiona essa busca, muitas vezes ignorando os perigos envolvidos.

Os perigos da restrição alimentar extrema

A tentativa de alcançar a magreza extrema por meio de restrição calórica e de nutrientes essenciais, como cálcio e minerais, acarreta sérias consequências para a saúde de mulheres com mais de 40 ou 50 anos. O risco de perda acelerada de tecido ósseo e o desenvolvimento precoce de osteoporose aumentam consideravelmente, tornando-as mais suscetíveis a fraturas.

Além disso, dietas extremamente restritivas podem levar a arritmias e outras doenças cardiovasculares, comprometendo a saúde do coração. A desnutrição resultante de uma alimentação pobre e insuficiente também se manifesta em cabelos e unhas quebradiços, e na pele com um aspecto mais envelhecido do que o natural. Relatos de usuárias de canetas emagrecedoras frequentemente incluem fraqueza, desânimo e baixa energia, sinais claros do impacto da falta de substratos necessários para a formação óssea e muscular.

Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), enfatiza a irrealidade de manter o corpo, a pele e o cabelo dos 20 ou 30 anos. “É uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso”, afirma. “Essa exigência que recai sobre as mulheres aumenta o estresse psíquico e traz danos sérios.”

O impacto fisiológico e metabólico

A perda de massa muscular, um dos efeitos colaterais da busca pela magreza extrema sem o devido acompanhamento, é particularmente preocupante. O músculo é hoje reconhecido como um órgão regulador do metabolismo, crucial para a sensibilidade à insulina e para o aproveitamento de benefícios metabólicos, inclusive aqueles associados a medicamentos como as canetas emagrecedoras.

Um estudo publicado no Scientific Reports, da Nature, em 2023, que acompanhou mais de 18 mil adultos por quase sete anos, revelou um efeito protetor da gordura em mulheres mais velhas. A pesquisa indicou que a mortalidade por todas as causas foi mais alta entre aquelas com o IMC (Índice de Massa Corporal) mais baixo, sugerindo que a magreza extrema pode, na verdade, ser um fator de risco.

A fase da menopausa, conforme um artigo do International Journal of Eating Disorders de 2025, pode ser tão significativa para o desenvolvimento de transtornos alimentares quanto a puberdade na adolescência. Fatores como histórico familiar de doenças psiquiátricas, inatividade social, mudanças corporais e a exposição a dietas muito restritivas elevam esse risco.

Emagrecimento consciente e saudável

Os especialistas são unânimes: o emagrecimento para a faixa etária acima dos 40 anos não deve ser contraindicado, mas precisa ser conduzido de forma diferente, sem radicalismos. O caminho ideal envolve a associação de qualquer estratégia de perda de peso com treino de força e um aporte adequado de proteína, cálcio e vitaminas, sempre com acompanhamento médico.

É fundamental que a sociedade e as próprias mulheres questionem os padrões estéticos irrealistas e priorizem a saúde e o bem-estar em todas as fases da vida. A busca por um corpo saudável e funcional, em vez de um corpo “ideal” imposto, é a chave para evitar os riscos e transtornos associados à magreza extrema.

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