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Direito ao tratamento da dor crônica avança no Brasil, mas SUS enfrenta obstáculos

Saúde

O Brasil deu um passo significativo no reconhecimento e enfrentamento da dor crônica com a sanção da Lei 15.422/2026 pelo presidente Lula (PT) no início de junho. A medida posiciona o país ao lado de nações como Chile e Itália, que já garantem o alívio da dor como um direito fundamental. No entanto, apesar do avanço legislativo, especialistas alertam que a efetiva aplicação da lei no Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentará desafios consideráveis, exigindo investimentos e reformulações estruturais.

A nova legislação visa assegurar atendimento integral a milhões de brasileiros que convivem com a dor crônica, uma condição que, quando persiste por mais de três meses sem causa aparente, impacta profundamente a qualidade de vida. A iniciativa é um marco importante para a saúde pública, mas a transição do papel para a prática demanda um olhar atento sobre a realidade do sistema de saúde nacional.

O que a nova lei estabelece para pacientes

A Lei 15.422/2026 vai além do simples reconhecimento do direito, detalhando as modalidades de cuidado que devem ser garantidas. Ela assegura o acesso a um atendimento multidisciplinar, que inclui fisioterapia, atividade física e acompanhamento nutricional, elementos cruciais para um tratamento holístico da dor.

Além disso, a norma garante o acesso a medicamentos e exames necessários para o diagnóstico e manejo da condição, bem como orientações claras sobre os riscos e efeitos colaterais dos tratamentos. A lei também institui o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica, a ser celebrado anualmente em 5 de julho, visando aumentar a visibilidade e o debate sobre o tema.

Países como Canadá, Reino Unido, França, Suécia, Portugal e Estados Unidos já oferecem assistência estruturada para a dor crônica, embora sob diferentes modelos e diretrizes. A inclusão do Brasil neste grupo reforça a importância global de abordar essa questão de saúde pública.

Desafios persistentes na implementação pelo SUS

Apesar do entusiasmo com a nova lei, a comunidade médica e de saúde aponta para uma série de obstáculos que podem dificultar sua aplicação imediata no SUS. Entre os principais desafios, destacam-se a falta de financiamento adequado, a carência de formação acadêmica específica para profissionais de saúde e a escassez de equipes multidisciplinares capacitadas em todo o território nacional.

A ausência de diretrizes clínicas unificadas em nível federal também é um fator preocupante. Sem protocolos claros e padronizados, a oferta de tratamento pode variar significativamente entre regiões e unidades de saúde, comprometendo a equidade e a qualidade do atendimento.

Um ponto de debate relevante é a remoção, na decisão final, da previsão inicial do PL 336/2024 – de autoria da deputada federal Bia Kicis (PL/DF) – que previa a inclusão do ensino da dor crônica como matéria obrigatória nos currículos dos cursos da área da saúde. Essa exclusão pode retardar a formação de profissionais aptos a lidar com a complexidade da condição.

O impacto da dor crônica na vida dos brasileiros

A dor crônica não é apenas um sintoma físico; ela é uma condição debilitante que afeta profundamente a saúde mental e o bem-estar social dos pacientes. O problema está intrinsecamente ligado a níveis mais elevados de depressão e ansiedade, distúrbios do sono, alterações na autoestima e dificuldades em relacionamentos pessoais e profissionais.

Para o médico Carlos Marcelo de Barros, professor de anestesiologia, dor e cuidados paliativos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alfenas (MG) e ex-presidente da Sociedade Brasileira para Estudos da Dor (Sbed), a lei deve impulsionar uma maior demanda por parte dos pacientes e do poder público. Ele acredita que, em um futuro próximo, a legislação servirá como base para a luta por mais serviços de saúde especializados.

A expectativa é que o reconhecimento legal da dor crônica como um direito gere uma pressão necessária para que o SUS desenvolva e amplie sua capacidade de atendimento, transformando a vida de milhões de pessoas que hoje sofrem em silêncio.

Caminhos para a efetivação do direito

A visão de especialistas como Carlos Marcelo aponta para a necessidade de o SUS adotar um modelo de tratamento da dor crônica semelhante ao de outras doenças crônicas, com a criação de centros regionais de referência e a capacitação da atenção básica. O exemplo de Alfenas (MG), onde existe um centro de tratamento da dor que acolhe pacientes da região e um curso de formação específico para a atenção básica, ilustra um caminho possível.

A formação de profissionais na atenção primária é crucial, pois são eles os primeiros a ter contato com os pacientes e podem realizar o diagnóstico precoce e o encaminhamento adequado. Investir em educação continuada e na criação de equipes multidisciplinares em todas as esferas do SUS será fundamental para que a Lei 15.422/2026 não se torne apenas uma promessa, mas uma realidade transformadora para a saúde dos brasileiros.

Para aprofundar-se nos desafios e avanços no tratamento da dor crônica no Brasil, acesse mais informações no portal do Ministério da Saúde.

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