Proibir redes sociais para jovens não é solução mágica, aponta especialista

Proibir redes sociais para jovens não é solução mágica, aponta especialista

Saúde

O debate sobre o impacto das tecnologias na vida de crianças e adolescentes atingiu um ponto de ebulição global. Enquanto pais, educadores e governos buscam respostas para o aumento dos índices de ansiedade e depressão entre os mais jovens, a ideia de restringir o acesso a smartphones e redes sociais ganhou força como uma espécie de panaceia. No entanto, para a psicóloga canadense Candice Odgers, professora da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), essa abordagem ignora nuances fundamentais e carece de embasamento científico robusto.

A distância entre a narrativa e a evidência científica

Com 25 anos de dedicação ao estudo da saúde mental infantojuvenil, Odgers observa com preocupação o abismo entre o discurso público e os dados acadêmicos. Segundo a especialista, embora existam correlações entre o uso intensivo de telas e problemas emocionais, a relação de causa e efeito é frequentemente mal interpretada. Muitas vezes, jovens que já enfrentam vulnerabilidades psicológicas buscam no ambiente digital uma forma de conexão ou refúgio, invertendo a lógica de que a tecnologia seria a causa primária do sofrimento.

A pesquisadora argumenta que, ao isolar as redes sociais como o grande vilão, a sociedade acaba negligenciando fatores estruturais mais complexos. Além disso, estudos de peso, como os conduzidos por um comitê da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, reforçam que os efeitos negativos observados são, em grande parte, pequenos e variáveis. A narrativa de que o ambiente digital é universalmente prejudicial, segundo Odgers, falha em reconhecer a resiliência dos adolescentes modernos.

O cenário de restrições globais e o caso brasileiro

A pressão por medidas restritivas tem levado diversos países a adotar legislações severas. A Austrália, por exemplo, tornou-se pioneira ao proibir o acesso de menores de 16 anos a plataformas como TikTok, Instagram e Facebook. Iniciativas semelhantes ganham tração no Reino Unido, França e Canadá, impulsionadas pelo medo de riscos como bullying, assédio e a exposição a conteúdos extremos.

No Brasil, a preocupação com a segurança digital também se traduziu em ações institucionais. Recentemente, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo no Discord, após graves episódios de indução à automutilação e ao suicídio envolvendo uma adolescente de 13 anos. Paralelamente, o país implementou o ECA Digital, que foca em controles e restrições de conteúdo, buscando equilibrar a proteção necessária com a realidade de uma geração nativa digital.

Por que a proibição pode ser contraproducente

Odgers alerta que proibir o acesso pode gerar efeitos colaterais indesejados. Ao retirar os jovens das plataformas monitoradas, eles podem migrar para espaços digitais menos regulados e ainda mais perigosos. A especialista defende que o foco deveria recair sobre a responsabilização das empresas de tecnologia e a criação de ambientes online mais seguros, em vez de simplesmente fechar as portas para a interação social digital.

Para a psicóloga, a solução passa por estabelecer expectativas elevadas e oferecer suporte real aos jovens, reconhecendo que, nas últimas duas décadas, houve avanços significativos em indicadores sociais, como a queda nas taxas de violência e de gravidez na adolescência. Em sua análise, a tecnologia é apenas uma ferramenta em um ecossistema muito mais amplo de desenvolvimento humano.

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