A busca por estratégias eficazes para preservar a saúde do cérebro durante o envelhecimento ganhou um novo e robusto capítulo. O estudo LatAm-Fingers, o primeiro ensaio clínico multicêntrico e randomizado realizado na América Latina, revelou que intervenções estruturadas no estilo de vida podem melhorar em até 55% o desempenho cognitivo global de idosos com risco de desenvolver demência. Os dados, apresentados recentemente na Alzheimer’s Association International Conference (AAIC 2026) e publicados na revista científica The Lancet, oferecem uma perspectiva otimista para uma região que enfrenta um rápido processo de transição demográfica.
O impacto das intervenções multidisciplinares
O estudo acompanhou, ao longo de dois anos, idosos com idades entre 60 e 77 anos em 12 centros de pesquisa espalhados por 11 países, incluindo o Brasil, que participou com polos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e na Universidade de São Paulo (USP). A metodologia dividiu os participantes em dois grupos: um recebeu apenas orientações gerais de saúde, enquanto o outro passou por um protocolo sistemático de intervenção em múltiplos domínios.
As ações focaram em pilares fundamentais: atividade física regular, reeducação alimentar, monitoramento clínico rigoroso, treinos cognitivos e estímulo à socialização. Ao final do período, a diferença entre os grupos foi expressiva. Além da melhora de 55% no desempenho cognitivo global, os pesquisadores observaram avanços significativos na memória, na capacidade de planejamento — conhecida como função executiva — e na velocidade de processamento de informações.
Contexto regional e fatores de risco
A América Latina apresenta um cenário particular. Estudos apontam que a região possui uma das frequências de demência mais altas do mundo entre idosos. Diferente de nações europeias ou dos Estados Unidos, onde a incidência de demência tem caído nas últimas três décadas devido à melhoria nas condições socioeconômicas e de saúde cardiovascular, a América Latina ainda lida com uma alta prevalência de fatores de risco não controlados, como hipertensão e diabetes, além de disparidades no acesso à educação.
De acordo com uma comissão da revista The Lancet, existem 14 fatores de risco modificáveis que incidem ao longo da vida. Entre eles, destacam-se a baixa escolaridade na infância, perda auditiva, hipertensão arterial, sedentarismo e redução da acuidade visual. Especialistas estimam que, se todos esses fatores fossem devidamente controlados, seria possível eliminar quase 60% dos casos de demência projetados para o Brasil.
A importância da prevenção precoce
Embora fatores como a idade e a genética sejam imutáveis, a ciência reforça que o cérebro possui uma plasticidade que permite mitigar riscos através de escolhas diárias. O sucesso do LatAm-Fingers valida a hipótese de que a janela de oportunidade para intervenções não farmacológicas na América Latina é ainda mais expressiva do que a observada em estudos anteriores, como o Finger (Finlândia, 2015) e o U.S. Pointer (Estados Unidos, 2025).
O controle rigoroso de doenças crônicas e o engajamento em atividades que desafiem o intelecto e o corpo não são apenas recomendações de bem-estar, mas ferramentas de saúde pública. O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos de pesquisas que impactam diretamente a longevidade e a qualidade de vida da população. Continue conosco para se manter informado sobre as descobertas que moldam o futuro da saúde e da ciência no Brasil e no mundo.

