À medida que o pleito eleitoral de outubro se aproxima, o cenário geopolítico ganha contornos de preocupação no Brasil. Especialistas em relações internacionais e tecnologia de informação apontam para um risco crescente de ações cibernéticas coordenadas pelos Estados Unidos, com o apoio estratégico de grandes empresas de tecnologia, as chamadas bigtechs. O alerta ganha força diante de um histórico recente de tensões diplomáticas e mudanças na doutrina de segurança norte-americana.
Memorando e a nova capacidade de vigilância
O centro das atenções é um memorando assinado pelo governo de Donald Trump no dia 12 de agosto. O documento, de caráter inédito, autoriza o uso de parcerias com o setor privado para operações de vigilância e o que o governo chama de “efeitos cibernéticos”. Segundo Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, a medida permite o acesso a sistemas de informação sem autorização prévia, o que ele classifica como uma ferramenta de espionagem de alta complexidade.
O texto oficial prevê atividades que podem resultar na manipulação, interrupção ou até mesmo na destruição de infraestruturas físicas e virtuais. Para Aragon, o perigo reside na capacidade dessas operações de criar dossiês detalhados sobre cidadãos, influenciando o curso da disputa eleitoral de forma invisível. O especialista defende que o Brasil precisa, com urgência, desenvolver sua própria infraestrutura digital, visto que sistemas sensíveis do Estado brasileiro dependem atualmente de tecnologias controladas por empresas estadunidenses.
A atuação das bigtechs como braço geopolítico
A relação entre o governo Trump e os gigantes da tecnologia parece ter se estreitado significativamente. O professor de história e especialista em geopolítica, Euclides Vasconcelos, observa que as bigtechs funcionam hoje como extensões dos interesses estatais dos EUA. Ele cita como exemplo a nomeação de executivos de empresas como Meta, OpenAI e Palantir para o “Destacamento 201”, uma unidade do Exército dos EUA criada em 2025.
Essa integração entre o setor privado e a máquina de guerra norte-americana preocupa pela capacidade de segmentação de eleitores. Ao utilizar algoritmos para canalizar informações e influenciar recortes demográficos específicos, essas plataformas podem atuar na descredibilização do sistema eleitoral brasileiro. O caso recente da imigração em Ceuta, na Espanha, é frequentemente citado como um exemplo de como a desinformação disseminada em redes sociais pode ser utilizada para gerar instabilidade social e política.
Doutrina de segurança e a soberania brasileira
O contexto de interferência não é isolado, mas parte de uma nova doutrina de segurança dos EUA, consolidada no final de 2025, que busca reafirmar a “proeminência” norte-americana na América Latina. Para Vasconcelos, o Brasil é visto como a peça-chave nesse tabuleiro, sendo o único país da região com potencial para desafiar a hegemonia estadunidense no hemisfério.
A tensão é visível em episódios recentes, como o bloqueio de vistos para funcionários do Departamento de Estado dos EUA, suspeitos de tentarem questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras. Em junho, o próprio Donald Trump sinalizou que o processo eleitoral no Brasil serviria como um teste para a influência de Washington na região. Diante desse cenário, a vigilância sobre a integridade do pleito torna-se não apenas uma questão técnica, mas um desafio central de soberania nacional.
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