Casos de doença do pulmão negro disparam entre mineiros nos EUA e acendem alerta

Casos de doença do pulmão negro disparam entre mineiros nos EUA e acendem alerta

Saúde

A pneumoconiose, popularmente conhecida como “doença do pulmão negro”, atinge níveis alarmantes entre os mineiros de carvão nos Estados Unidos, especialmente na região dos Apalaches. O ressurgimento dessa condição, que já havia sido controlada na década de 1970, levanta sérias preocupações sobre a saúde ocupacional e a eficácia das regulamentações de segurança. A doença, potencialmente fatal, provoca falta de ar progressiva e insuficiência respiratória, transformando a vida de trabalhadores dedicados ao setor.

Um exemplo pungente dessa realidade é John, um mineiro de 45 anos que, após duas décadas nas minas de carvão da Virgínia Ocidental, já não consegue realizar atividades simples como pescar com o filho. “Não consigo respirar, e isso mudou tudo”, relata o homem, cuja voz robusta agora é entrecortada pela dificuldade. John, que preferiu usar um pseudônimo devido a uma ação judicial contra seu antigo empregador, é uma das muitas vítimas de uma crise de saúde pública que se agrava silenciosamente.

O Retorno Alarmante da Pneumoconiose

A situação nos Apalaches, uma das principais regiões mineradoras dos EUA com cerca de 30 mil trabalhadores, é crítica. Um estudo recente do Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), publicado em agosto de 2026, revelou que um em cada três mineiros da região com mais de 25 anos de serviço no setor sofre de pneumoconiose. O epidemiologista Scott Laney, coautor do estudo, descreveu o cenário como “bastante alarmante”, comparando-o aos níveis observados na década de 1970.

A prevalência da doença tem crescido incessantemente desde os anos 2000, revertendo um período de declínio significativo. Esse controle anterior foi resultado de normas rigorosas que visavam limitar a exposição dos trabalhadores à poeira de carvão. No entanto, a realidade atual aponta para uma falha sistêmica em manter esses padrões ou em adaptá-los às novas condições de mineração.

Sílica: O Agente Tóxico por Trás do Ressurgimento

O principal responsável pelo ressurgimento da doença do pulmão negro é a sílica, uma substância até 20 vezes mais tóxica que o carvão. Com o esgotamento das jazidas de carvão de acesso mais fácil, as empresas passaram a perfurar rochas mais profundamente para extrair o minério. Esse processo libera partículas finas de sílica, expondo os mineiros a um agente muito mais perigoso.

Scott Laney explica que essa maior exposição não apenas faz com que os mineiros adoeçam mais rapidamente, mas também desenvolvam formas mais graves da doença do que no passado. A inalação contínua dessas partículas causa danos irreversíveis aos pulmões, culminando em fibrose e perda progressiva da capacidade respiratória.

Jovens Vítimas e a Luta por Prevenção

A gravidade da situação é evidenciada pela idade cada vez mais jovem dos pacientes. Na clínica especializada dirigida por Lisa Emery em Oak Hill, o paciente mais jovem diagnosticado com fibrose maciça progressiva, a forma mais severa da doença do pulmão negro, tinha apenas 30 anos. “Já não é a doença do avô. É a doença do seu marido. É a doença do seu filho”, lamenta Emery, destacando a mudança no perfil das vítimas.

Alguns pacientes com pouco mais de 40 anos já estão na fila para um transplante duplo de pulmão, a única esperança para os casos mais avançados. Diante desse cenário preocupante, a agência americana responsável pela segurança nas minas (MSHA) adotou em 2024 uma norma que reduziria o limite de exposição à sílica para um nível considerado mais seguro pela comunidade científica. Contudo, essa medida crucial foi suspensa por um tribunal federal de apelações após recursos de associações do setor de mineração, que consideraram os padrões de verificação excessivamente rígidos. A MSHA adiou a implementação da norma por tempo indeterminado, deixando os mineiros desprotegidos.

Interesses Econômicos e a Saúde dos Mineiros

A National Mining Association, principal entidade representativa das empresas de mineração nos Estados Unidos, afirmou à AFP que apoia “sem ressalvas” o novo limite de exposição à sílica. No entanto, a porta-voz Ashley Burke esclareceu que a discordância da associação reside na “forma” prevista para cumprir esse limite. Burke argumenta que os novos casos de pulmão negro não refletem as condições atuais das minas, devido ao longo tempo que os sintomas levam para aparecer, e que as condições de trabalho melhoraram “exponencialmente” nas últimas duas décadas.

Essa visão, contudo, é contestada por evidências. Um estudo de 2025 do Appalachian Citizens’ Law Center (ACLC), uma ONG dedicada à defesa dos mineiros, revelou que uma em cada cinco minas inspecionadas pela MSHA apresentava níveis perigosos de poeira de sílica. Em cerca de dez dessas minas, o nível era mais de duas vezes superior ao limite proposto pela norma suspensa. Gary Hairston, presidente de uma associação nacional de defesa dos mineiros doentes e ele próprio vítima da doença, acusa as empresas de “saberem muito bem como enganar os inspetores”. “Elas não se importam com os mineiros. Para elas, não passamos de um número. A única coisa que interessa a elas é o carvão que produzem”, denuncia Hairston.

Para Debbie Wills, que acompanha mineiros doentes há quase quatro décadas, a situação é ainda mais lamentável porque a pneumoconiose é “100% evitável”. “Ninguém precisa sofrer com essa doença”, enfatiza. “Mas, se as medidas de prevenção não forem adotadas, os mineiros acabarão desenvolvendo a doença.” A luta pela implementação de normas de segurança eficazes e pela proteção dos trabalhadores continua, em meio a um cenário onde a saúde humana parece ser secundária aos interesses econômicos.

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