A rotina de alta performance e o mito da escolha individual
Recentemente, o mundo corporativo global tem colocado sob os holofotes a rotina de exercícios de CEOs de grandes companhias. Executivos de peso, como Roland Busch, da Siemens, e Sayeh Ghanbari, da EY, descrevem seus treinos diários com a mesma seriedade dedicada a reuniões de negócios. Para esse grupo, a disciplina física é tratada como um ativo de produtividade, onde a resiliência e o foco são transpostos da sala de diretoria para a academia ou para as artes marciais.
Essa narrativa, contudo, ignora uma realidade estrutural profunda: a atividade física, quando tratada como uma escolha de estilo de vida, pressupõe um tempo livre que é, na prática, um artigo de luxo. Enquanto o mercado de fitness celebra a “consistência” e o “controle” como virtudes individuais, a grande maioria da população enfrenta jornadas exaustivas, como a escala 6×1, que relegam o cuidado com o corpo a um plano secundário ou inexistente.
Desigualdade e o acesso ao movimento
A prática de exercícios não ocorre em um vácuo. O acesso a espaços seguros, áreas verdes, equipamentos esportivos e transporte de qualidade é condicionado pela posição social e pelo território onde o indivíduo reside. Em metrópoles brasileiras, como São Paulo, a segregação socioespacial atua como um filtro invisível que dita quem pode se exercitar por lazer e quem é forçado a se movimentar apenas por necessidade.
Um estudo conduzido por pesquisadores da USP, liderado por Alex Florindo, trouxe dados contundentes sobre essa disparidade ao longo de uma década. A pesquisa utilizou o índice de Jeopardy para medir como marcadores de vulnerabilidade social — como gênero, raça, etnia e escolaridade — impactam diretamente a capacidade de uma pessoa incluir atividades físicas em sua rotina de lazer.
Os números do abismo social
Os resultados da investigação revelam uma tendência preocupante de alargamento do hiato social. Embora tenha havido um aumento geral na prática de atividades físicas entre 2014 e 2024, o benefício não foi distribuído de forma equânime. Enquanto o grupo menos vulnerável viu sua adesão ao exercício de lazer saltar de 51% para 65%, o grupo mais vulnerável registrou um crescimento muito mais lento, saindo de 29% para 39%.
O dado mais revelador do estudo é a distinção entre o exercício por lazer e a caminhada por transporte. A vulnerabilidade social não impediu que pessoas caminhassem para chegar ao trabalho — algo que, para muitos, é a única forma de mobilidade disponível. No entanto, a desigualdade se manifesta de forma brutal no lazer, que é justamente onde residem os maiores ganhos para a saúde física e mental. O exercício, portanto, torna-se um marcador de classe: é uma escolha para quem tem capital, e uma imposição para quem não tem.
Políticas públicas além da recomendação
A lição que emerge desse cenário é clara: o discurso de “ser mais ativo” é insuficiente se não for acompanhado de mudanças estruturais. Não basta que profissionais de saúde recomendem a prática esportiva se as condições materiais para tal não existem. A desigualdade no acesso ao lazer exige ações articuladas que integrem urbanismo, segurança pública e políticas de saúde.
O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos das pesquisas sobre medicina do estilo de vida e seu impacto nas políticas públicas. Nosso compromisso é trazer análises que conectem a ciência aos desafios sociais do Brasil, mantendo você informado sobre as dinâmicas que moldam a saúde coletiva e o bem-estar da sociedade. Continue conosco para aprofundar o debate sobre os temas que impactam o seu dia a dia.

