A detenção de Franklin Humberto Coral Garrido, mais conhecido como Beto Coral, um proeminente ativista progressista digital colombiano de 40 anos, nos Estados Unidos, gerou uma onda de debates e preocupações sobre liberdade de expressão e a atuação política de imigrantes em solo americano. A prisão, ocorrida na terça-feira (16) em Phoenix, Arizona, segue-se a intensas críticas de Coral a Abelardo de la Espriella, um candidato de ultradireita à presidência da Colômbia, que conta com o apoio declarado do ex-presidente dos EUA, Donald Trump.
O incidente ganhou contornos diplomáticos com a intervenção do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que emitiu um memorando no mesmo dia da prisão, declarando Coral passível de deportação. Este caso levanta questões complexas sobre a soberania política e a liberdade de ativistas estrangeiros em território americano, especialmente quando suas ações se alinham com a polarizada política externa dos Estados Unidos.
A intervenção de Marco Rubio e o memorando de deportação
A detenção de Beto Coral por autoridades de imigração não foi um evento isolado, mas sim precedida por uma ação direta do secretário de Estado Marco Rubio. Em seu memorando, obtido pelo The New York Times, Rubio argumentou que Coral, que chegou aos EUA em 2015 com visto de turista e tem um pedido de asilo pendente, utilizou sua estadia para “conduzir atividade política em apoio ao governo Petro” e para “protestar contra um candidato à Presidência”.
Rubio afirmou que a permanência de Coral nos Estados Unidos “prejudica os interesses da política externa dos EUA nos processos democráticos da Colômbia” e sinaliza que estrangeiros podem usar plataformas americanas para “conduzir campanhas de desinformação politicamente motivadas e litígios visando atores democráticos estrangeiros sem consequências”. Esta não é a primeira vez que Rubio usa sua autoridade para recomendar a deportação de indivíduos, mas é a primeira vez que essa medida é aplicada a um ativista ligado a uma eleição estrangeira, marcando uma escalada na aplicação dessa prerrogativa.
Beto Coral: ativismo, asilo e a versão do ICE
Beto Coral é um conhecido apoiador do atual presidente colombiano, Gustavo Petro, uma figura de esquerda que tem tido atritos com Donald Trump. Coral, natural de Medellín, tem sido uma voz ativa na esfera digital, utilizando plataformas para expressar suas opiniões e criticar figuras políticas. Sua ex-companheira, Tatiana Camacho, revelou que Coral havia solicitado asilo após sua chegada aos EUA há mais de uma década e possuía uma autorização de trabalho válida, concedida por um juiz federal.
No entanto, o Departamento de Segurança Interna (ICE) apresentou uma narrativa diferente. Em comunicado, o ICE declarou que Coral “entrou no país em dezembro de 2015 com um visto B1/B2 que lhe permitiria permanecer no país por seis meses” e que, em “violação às leis de nossa nação, ele excedeu o prazo de seu visto por dez anos”. A agência afirmou que ele permanecerá sob custódia aguardando os procedimentos de remoção, o que contrasta com a alegação de Coral de possuir documentos válidos.
Abelardo de la Espriella: o alvo das críticas e o cenário eleitoral colombiano
O centro da controvérsia é Abelardo de la Espriella, um ex-advogado criminalista que se tornou uma figura polarizadora na política colombiana. Espriella, que se naturalizou cidadão americano em 2023 após passar mais de uma década na Flórida, representou clientes colombianos de alto perfil, muitos deles enfrentando acusações criminais relacionadas a tráfico de drogas e corrupção. Ele também é conhecido por processar dezenas de jornalistas, a quem frequentemente se refere como “ativistas”.
Sua ascensão política e o apoio de Trump, juntamente com o respaldo de parlamentares republicanos como o senador Bernie Moreno de Ohio, solidificaram sua posição como um candidato de ultradireita. Espriella enfrentou Iván Cepeda, do partido de Petro, no segundo turno da eleição presidencial, que ocorreu neste domingo (21). Beto Coral havia viajado para Miami dias antes de sua prisão para protestar contra Espriella e encorajar a diáspora colombiana a não votar nele. Além disso, Coral havia apresentado uma queixa ao FBI acusando Espriella de gravar ilegalmente conversas telefônicas entre os dois e divulgar o áudio, resultando em assédio.
Repercussões e o debate sobre a liberdade de expressão
A detenção de Beto Coral provocou fortes reações. Gimena Sánchez, diretora para os Andes do Washington Office on Latin America, classificou a medida como uma “escalada descarada” do governo Trump. Segundo ela, a mensagem implícita é que “você não pode se opor, criticar ou protestar contra alguém que o governo dos EUA considera ser um amigo próximo”, mesmo que a defesa de Coral não dissesse respeito diretamente aos Estados Unidos.
O caso de Coral, que foi interceptado por agentes do ICE ao retornar para casa em Phoenix com seu filho de 12 anos e seu cachorro, e que conseguiu alertar o proeminente jornalista colombiano Daniel Coronell sobre sua prisão, destaca a fragilidade da situação de imigrantes ativistas. A controvérsia em torno de sua detenção e a intervenção de um alto funcionário do governo dos EUA em um processo eleitoral estrangeiro reforçam o debate sobre os limites da liberdade de expressão e a potencial instrumentalização do sistema de imigração para fins políticos.
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