19.set.22/Folhapress

Classificação do autismo: debate expõe tensões entre níveis do espectro e desafios para políticas

Saúde

A discussão em torno da categorização do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado força nos últimos anos, revelando uma complexa rede de tensões e desafios. No centro desse debate, emerge uma notável divergência entre autistas classificados no nível 1, frequentemente denominados como ‘leves’, e os pais de indivíduos com autismo de graus mais severos, que enfrentam deficiência intelectual e severas dificuldades de comunicação. Essa polarização não apenas reflete as distintas realidades vividas por cada grupo, mas também impõe obstáculos significativos à formulação de políticas públicas eficazes e à condução de pesquisas mais direcionadas.

Desde 2013, o conceito de espectro foi oficialmente estabelecido pela quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a principal referência da psiquiatria mundial. Essa unificação agregou diversas condições que antes eram diagnosticadas separadamente, como a Síndrome de Asperger, sob o guarda-chuva do TEA, subdividindo-o em três níveis de suporte necessário: nível 1 (‘exige apoio’), nível 2 (‘exige apoio substancial’) e nível 3 (‘exige apoio muito substancial’).

A unificação do espectro e seus impactos

A criação do espectro autista pelo DSM-5 representou um marco. Por um lado, especialistas e defensores da causa celebram o aumento da conscientização sobre o autismo e as importantes conquistas de direitos para as pessoas no espectro. A maior visibilidade contribuiu para desmistificar a condição e promover a inclusão em diversos setores da sociedade.

Contudo, a abrangência do espectro também trouxe desafios consideráveis. A vasta heterogeneidade de manifestações do autismo, agora agrupadas sob uma única denominação, dificultou a realização de pesquisas focadas em necessidades específicas. Além disso, a elaboração de políticas públicas e a oferta de diagnósticos e tratamentos adequados tornaram-se mais complexas, dada a diversidade de demandas que um único rótulo precisa contemplar.

Diferentes vozes, diferentes necessidades no autismo

O debate atual expõe uma “disputa muito séria” entre autistas com graus “mais sutis” e pais dos que apresentam as condições mais graves, conforme observa Lucelmo Lacerda, doutor em educação e pós-doutor em psicologia. Lacerda, que é pai de um filho autista de grau severo e recebeu posteriormente o próprio diagnóstico de autismo (anteriormente Síndrome de Asperger), possui uma perspectiva única sobre essa tensão.

Antes da unificação do TEA, indivíduos com Síndrome de Asperger, geralmente com inteligência normal ou acima da média e competência verbal, lideravam os movimentos de advocacy para sua condição. Paralelamente, os pais eram, via de regra, as vozes dos autistas com quadros mais severos, que frequentemente apresentam comprometimento intelectual e dificuldades ou incapacidade de comunicação. Com a criação do espectro, surgiu nos movimentos a ideia de uma “voz própria” para todos os autistas, o que nem sempre alinha as prioridades e as formas de representação.

Desafios para pesquisa e políticas públicas

A amplitude do espectro autista tem um impacto direto na pesquisa científica. Apenas 6% das pesquisas focam no autismo profundo, que atinge cerca de 26% dos autistas. Essa desproporção sugere que as necessidades mais urgentes e complexas dos indivíduos com autismo severo podem estar sub-representadas nos estudos, o que, por sua vez, afeta o desenvolvimento de intervenções e terapias específicas.

Para as políticas públicas, a dificuldade reside em criar programas que atendam a um leque tão amplo de necessidades. Um autista nível 1 pode precisar de apoio para habilidades sociais e flexibilidade cognitiva, enquanto um autista nível 3 pode demandar suporte intensivo para comunicação básica, autocuidado e segurança. A ausência de uma distinção mais clara nas políticas pode levar a um subatendimento de alguns grupos ou à alocação ineficiente de recursos.

A reavaliação do TEA e o futuro da classificação

Diante desses desafios e das tensões observadas, a discussão sobre a necessidade de reavaliar o TEA na próxima edição do DSM tem ganhado força entre a comunidade científica. A Associação Americana de Psiquiatria, responsável pela elaboração do manual, é o palco para esse debate crucial.

Uma possível reavaliação não significaria um retrocesso, mas sim um ajuste para garantir que a classificação reflita de forma mais precisa a diversidade do autismo, permitindo que cada indivíduo receba o apoio e os recursos de que necessita. O objetivo é encontrar um equilíbrio entre a inclusão e a especificidade, garantindo que a voz de todos os autistas e de suas famílias seja ouvida e considerada.

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