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Cabo Verde: o dilema entre o potencial inato e a escassez de oportunidades

Saúde

A nação insular de Cabo Verde, com sua beleza natural e um povo reconhecidamente resiliente, enfrenta um paradoxo persistente: a abundância de “permitências” – propriedades intrínsecas que conferem novas possibilidades – contrasta com uma severa escassez de oportunidades concretas. Essa realidade foi vividamente observada e contextualizada pela neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, que, após uma semana na capital Praia, na ilha de Santiago, lecionando para aspirantes a pós-graduação, trouxe à tona a dura verdade de um país onde o potencial humano muitas vezes esbarra em barreiras estruturais.

A percepção da cientista, compartilhada em sua coluna, transcende a mera observação turística. Ela mergulha na essência do desenvolvimento, questionando como um país com indivíduos tão dedicados e inquisitivos pode lutar para oferecer um futuro próspero. A metáfora dos “Tubarões Azuis”, a seleção caboverdiana de futebol, que com sua garra conquistou a chance de competir em grandes torneios, simboliza a vontade e a capacidade de superação, mas também a necessidade premente de que essas “permitências” sejam acompanhadas por caminhos reais de crescimento.

Cabo Verde: um arquipélago de desafios e resiliência

Geograficamente, Cabo Verde é um arquipélago no Atlântico, caracterizado por ilhas pequenas, solo árido e uma dependência climática crítica. A vida fora dos centros urbanos, como a capital Praia, é descrita como beirando a miséria, com a agricultura limitada a vales férteis e uma subsistência precária. A escassez de água e a vulnerabilidade a secas são desafios crônicos que impactam diretamente a produção de alimentos e a economia local, dificultando a criação de oportunidades sustentáveis para a população.

Apesar das belezas naturais que atraem turistas, a infraestrutura e as condições de vida para os moradores locais revelam uma realidade complexa. A presença de mercadinhos com nomes em chinês e esqueletos de construções inacabadas, mencionados pela neurocientista, ilustram tanto o investimento externo quanto a incerteza que permeia muitos projetos de desenvolvimento. Essa dinâmica reflete a busca constante do país por parcerias e soluções para impulsionar sua economia, que ainda se apoia fortemente em remessas de emigrantes e no setor de serviços.

A distinção entre permitências e oportunidades

Suzana Herculano-Houzel introduz o conceito de “permitência” (sua tradução para o inglês “affordance”) para descrever as propriedades intrínsecas de um sistema que lhe conferem novas possibilidades. No contexto biológico, ela explica como a ausência de parede celular em animais é uma permitência para a formação de neurônios, que por sua vez permitem um comportamento flexível e inteligente. Transpondo essa ideia para o cenário social, os estudantes caboverdianos, e por extensão o povo do arquipélago, possuem todas as “permitências” para serem cientistas, empreendedores ou profissionais de sucesso: são diligentes, inquisitivos, aplicados e cheios de iniciativa.

No entanto, a mera existência dessas “permitências” não é suficiente. Sem as “oportunidades” – acesso à educação de qualidade, infraestrutura adequada, mercado de trabalho aquecido, investimentos em pesquisa e desenvolvimento – esse potencial permanece latente. A energia, por exemplo, é a oportunidade mais essencial à vida, e em Cabo Verde, a limitação de recursos naturais e a dependência de importações energéticas são entraves significativos. A falta de um ambiente propício para que as “permitências” floresçam resulta em um ciclo de subdesenvolvimento, onde talentos podem ser desperdiçados ou forçados a buscar chances em outras terras.

Impacto social e o clamor por um futuro

A realidade de Cabo Verde ressoa com a situação de muitas outras nações em desenvolvimento, onde o capital humano é vasto, mas as condições socioeconômicas limitam seu pleno aproveitamento. A busca por trabalho, inclusive por vizinhos continentais senegaleses em condições ainda mais precárias, evidencia a pressão sobre os recursos e as oportunidades disponíveis. Esse cenário levanta questões cruciais sobre a equidade global e a responsabilidade de organismos internacionais e nações mais desenvolvidas em apoiar o crescimento de países como Cabo Verde.

A história dos “Tubarões Azuis” na Copa do Mundo, que mobiliza a torcida brasileira e o desejo de ver um time africano triunfar, é um lembrete poderoso de que a vontade de vencer existe. O que se espera é que essa energia e determinação se traduzam em mais do que vitórias esportivas, mas em um desenvolvimento humano e econômico que ofereça dignidade e perspectivas para todos. É um apelo por políticas públicas eficazes, investimentos estratégicos e um ambiente que transforme o potencial em progresso tangível. Para aprofundar-se nos desafios de desenvolvimento de pequenas ilhas, consulte relatórios de instituições como o Banco Mundial.

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