Bianca Bagnaralli/NYT

Compartilhamento de moradia emerge como alternativa para idosos nos EUA enfrentarem altos custos e solidão

Saúde

Em um cenário de crescente envelhecimento populacional e uma crise habitacional que afeta diversas faixas etárias, idosos nos Estados Unidos têm encontrado no compartilhamento de moradia uma solução multifacetada. A prática não apenas alivia o peso financeiro dos altos custos de vida, mas também oferece uma resposta eficaz à solidão, um problema social cada vez mais presente entre os mais velhos.

A iniciativa, que ganha força impulsionada por organizações sem fins lucrativos e até por programas governamentais, reflete uma adaptação criativa às pressões econômicas e sociais. Ela permite que proprietários de imóveis com cômodos ociosos gerem renda extra, enquanto aqueles que buscam moradia acessível encontram um lar e, muitas vezes, uma nova companhia.

Uma solução para custos e companhia

O caso de Shirley Jennett, uma enfermeira aposentada de 89 anos em Denver, Colorado, ilustra perfeitamente os benefícios do compartilhamento de moradia. Determinada a permanecer em sua espaçosa casa com um grande quintal, Jennett encontrou em Susan Beese, de 79 anos, a parceira ideal. Apesar de ainda trabalhar quatro dias por semana no varejo, Beese não conseguia mais arcar com o aluguel de seu apartamento de um quarto, que havia ultrapassado os US$ 1.500 (cerca de R$ 8.000) mensais.

Agora, Beese paga a Jennett US$ 800 (aproximadamente R$ 4.200) por mês por um espaço luminoso de dois quartos no andar inferior da casa, com banheiro e cozinha privativos. Além do aluguel, o acordo inclui a ajuda de Beese em tarefas como jardinagem, descarte do lixo e preparação ocasional de refeições, transformando a relação em uma parceria de apoio mútuo. A presença de Beese e até de seu cachorro trouxe não só alívio financeiro para ambas, mas também a segurança e o companheirismo que Jennett precisava, especialmente após algumas quedas.

Apoio institucional e crescimento da iniciativa

A popularidade do compartilhamento de moradia nos EUA não é um fenômeno isolado. Organizações como a Sunshine Home Share Colorado, fundada em 2016 por Alison Joucovsky, administradora de serviços para idosos, têm sido cruciais para conectar “provedores de moradia” (geralmente idosos com casas grandes e vazias) e “buscadores de moradia” (indivíduos de diversas idades procurando aluguéis razoáveis). Joucovsky relata que a demanda explodiu devido aos pedidos angustiados de idosos que gastavam a maior parte de suas aposentadorias com aluguéis exorbitantes ou enfrentavam anos de espera por moradias subsidiadas.

No ano passado, a Sunshine Home Share Colorado facilitou um recorde de 31 compartilhamentos, demonstrando a eficácia do modelo. Laura Fanucchi, presidente do National Shared Housing Resource Center e administradora da HIP Housing na Califórnia, enfatiza que o compartilhamento é uma forma eficiente de criar habitação acessível, aproveitando o estoque habitacional existente em vez de depender da construção de novas e caras moradias. Atualmente, cerca de 55 organizações nos EUA oferecem esses serviços, e a demanda continua a crescer.

Desafios econômicos e o alcance da crise

A necessidade de alternativas habitacionais é urgente. Uma análise do Harvard Joint Center for Housing Studies revelou que, em 2024, cerca de um terço dos domicílios chefiados por alguém com 65 anos ou mais estava “sobrecarregado com custos”, gastando mais de 30% de sua renda com moradia. Embora quase 80% desses idosos sejam proprietários de imóveis, muitos ainda enfrentam hipotecas, impostos mais altos, custos de serviços públicos, manutenção e prêmios de seguro.

A deputada estadual da Pensilvânia, Abby Major, coautora de um projeto de lei para facilitar o compartilhamento de moradia, observa que muitos idosos com renda fixa, cujos filhos já saíram de casa e talvez o cônjuge tenha falecido, se veem em casas grandes demais e com custos insustentáveis. Mudar-se, no entanto, também se tornou caro devido à alta dos preços dos imóveis e das taxas de juros. A crise habitacional não afeta apenas os idosos; pessoas mais jovens também estão sobrecarregadas, com 37% dos indivíduos entre 25 e 34 anos e 31% entre 35 e 44 anos enfrentando os mesmos desafios de custos.

Tecnologia e o futuro do compartilhamento

Para expandir o alcance do compartilhamento de moradia, alguns programas estão adotando plataformas online que complementam ou substituem os métodos tradicionais de correspondência. Candice Smith, diretora executiva da HomeShare Oregon, compara o processo ao “namoro online, exceto que pessoas com quartos podem conhecer pessoas que precisam de quartos”, ressaltando que é um método muito mais seguro devido à triagem rigorosa. A plataforma da HomeShare Oregon, por exemplo, atraiu cerca de 7.000 usuários em cinco anos.

Além disso, cidades como Portland estão implementando programas piloto para incentivar a prática. Este ano, a cidade anunciou um programa que paga US$ 1.000 (cerca de R$ 5.200) a proprietários que disponibilizem um quarto extra, ou US$ 1.500 (cerca de R$ 7.800) por dois quartos, através de programas qualificados de compartilhamento. Essas iniciativas demonstram um reconhecimento crescente do potencial do compartilhamento de moradia como uma solução viável e sustentável para os desafios habitacionais e sociais enfrentados por uma parcela significativa da população.

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