14.mai.2026/AFP

Competição EUA China: desafios demográficos podem redefinir o equilíbrio de poder global

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Em meio a uma grande cúpula em Pequim, o cenário da competição entre Estados Unidos e China se torna um ponto central de análise, especialmente no que tange à dinâmica de uma ‘nova Guerra Fria’, ou talvez uma ‘Guerra Fria morna’. A avaliação do equilíbrio de forças entre as duas maiores potências globais exige um olhar atento sobre as tendências recentes e as projeções futuras, que podem surpreender observadores acostumados a narrativas lineares de ascensão e declínio.

Há seis anos, no início da pandemia de coronavírus, a previsão de uma ‘década chinesa’ sugeria um período de pico para o poder da China e máxima ameaça para a posição americana, com um equilíbrio mais favorável aos EUA apenas na segunda metade do século. Contudo, o desenrolar dos eventos trouxe nuances importantes, reconfigurando parte dessas expectativas e revelando que a trajetória de ambas as nações é mais complexa do que se imaginava inicialmente.

A pandemia e a estabilidade relativa: um balanço inesperado

Uma das correções mais significativas na análise da competição EUA China diz respeito à resposta à pandemia. Inicialmente, a estratégia de contenção da China parecia mais eficiente que a abordagem caótica dos EUA. No entanto, em retrospecto, a gestão americana, embora vacilante, mostrou-se mais eficaz a longo prazo. A República Popular Chinesa, por sua vez, viu-se aprisionada em uma armadilha de lockdowns permanentes que geraram danos sociais e econômicos consideráveis, minando o que poderia ter sido um dividendo pós-Covid.

Apesar disso, outros aspectos da década de 2020 se alinharam às previsões. O ‘império americano’ tem enfrentado pressões em diversas frentes, e a alternância de lideranças na presidência dos EUA — percebidas como decadente e senil na gestão anterior, e arrogante e truculenta na atual — acabou por conceder à China uma reputação de relativa estabilidade. Isso ocorreu mesmo com os movimentos agressivos e repressivos do presidente Xi Jinping, que têm sido uma constante em seu governo.

Vantagem industrial e desafios militares americanos

A retórica sobre a reconstrução da manufatura americana e o desacoplamento parcial entre as economias dos EUA e da China, iniciado na era Trump, marcou uma clara mudança em relação ao modelo de ‘Chimérica’ que dominou a década de 2010. No entanto, esse processo ocorre à sombra de uma profunda vantagem industrial chinesa. O país asiático continua a fazer avanços significativos em ciência e tecnologia, especialmente em áreas como inteligência artificial.

Embora os EUA possam manter uma vantagem em modelos de fronteira de IA, a China os supera com folga na produção de máquinas-ferramenta, robôs, navios e drones, elementos cruciais para o ‘hard power’. Essa disparidade levanta questões sobre a sustentabilidade da liderança tecnológica americana. No campo militar, uma percepção otimista de seis meses atrás, que via o apoio dos EUA à Ucrânia e intervenções no Irã e Venezuela como campos de testes para novas armas e táticas, foi abalada. O desgaste do arsenal militar americano sob a pressão de um conflito regional contra o Irã neste ano gerou ceticismo quanto à suficiência das vantagens dos EUA para um conflito prolongado no Leste Asiático. Um impasse contra o Irã, por exemplo, poderia preceder uma derrota em uma eventual guerra contra a China, colocando a posição de hard power americana em uma situação tão precária quanto nunca antes.

O futuro econômico e o ponto de convergência

Olhando para as décadas de 2040 ou 2060, a narrativa da ascensão chinesa começa a mostrar fissuras. Há seis anos, já se apontava que a taxa de crescimento da China poderia estar desacelerando, tornando menos provável que o país alcançasse os padrões de vida de seus vizinhos do Leste Asiático ou superasse os EUA como a maior economia do mundo. Desde então, a ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota, que visava consolidar uma ampla esfera de influência econômica chinesa, sofreu repetidos reveses.

Mais revelador ainda é o fato de que 2021 marcou o ponto de maior convergência do Produto Interno Bruto (PIB) nominal da China com o dos EUA. A partir desse ano, os EUA cresceram mais rapidamente, enquanto a China enfrentava a ressaca da Covid-19 e uma série de problemas internos. Isso levanta a possibilidade, agora considerada uma probabilidade, de que a economia chinesa nunca se torne a maior do mundo. Manter altas taxas de crescimento em condições de envelhecimento populacional acelerado é, de fato, um desafio extraordinariamente difícil.

O fator demográfico: um freio inesperado na ascensão chinesa

A outra grande tendência dos últimos seis anos que impacta diretamente a competição EUA China é a situação demográfica da China, que se revelou muito pior do que se imaginava. O fim da política do filho único em 2016, que deveria impulsionar as taxas de natalidade, não surtiu o efeito esperado. Pelo contrário, a taxa de fecundidade chinesa continuou a cair, projetando uma média de 1,0 nascimento por mulher ao longo da vida em 2025, metade do nível de reposição, marcando o quarto ano consecutivo de declínio populacional.

As preocupantes tendências sociais observadas nos EUA, como o distanciamento entre os sexos e a perda de interesse no casamento e na família, parecem ter avançado de forma muito mais acelerada na China. Um estudo recente sobre as atitudes dos jovens chineses revelou que 32% dos entrevistados entre 18 e 24 anos declararam não ter ‘nenhum desejo de ter filhos’, um aumento drástico em comparação com os 5% registrados em 2012. Esses dados formam um contraponto impressionante à crescente confiança chinesa, que beira a arrogância, quanto à inevitabilidade do declínio americano.

Arrogância chinesa versus realidade demográfica

Afinal, quão confiantes podem estar os chineses no futuro de sua civilização se a geração mais jovem demonstra tão pouco interesse em se reproduzir? Quão seguros podem estar os líderes da China de que sobreviverão aos EUA se sua população pode ser reduzida à metade nas próximas gerações? Quanto poder, seja ele duro ou brando, pode uma civilização em rápido envelhecimento esperar projetar, especialmente considerando que a influência cultural global da China permanece notavelmente limitada?

Essas questões complexas e interligadas sugerem que, embora a China tenha apresentado um crescimento notável e desafiado a hegemonia americana em muitos aspectos, os ventos demográficos podem estar soprando em uma direção que freará sua ascensão a longo prazo. A competição EUA China, portanto, está longe de ser um jogo de soma zero com um vencedor claro e imutável, e o futuro reserva reviravoltas que exigirão uma análise contínua e aprofundada.

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