A recente avalanche de lama e gelo que devastou a região central do Nepal em 26 de agosto de 2026 adiciona-se a uma lista crescente de desastres naturais que, segundo especialistas, são intensificados pelas mudanças climáticas globais. A tragédia, já classificada pela imprensa local como o evento de maior impacto econômico na história do país, ressalta uma profunda injustiça: nações como o Nepal, que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, são as que mais sofrem suas consequências.
O Nepal, uma nação montanhosa no coração do Himalaia, é historicamente responsável por uma parcela mínima das emissões de gases de efeito estufa, contribuindo com apenas 0,05% do total global. Contudo, sua vulnerabilidade geográfica o coloca na linha de frente dos impactos mais severos da crise climática. Essa disparidade foi veementemente destacada por Manjeet Dhakal, especialista em diplomacia climática e negociador do grupo dos Países Menos Desenvolvidos nas conferências da ONU sobre o clima.
A Tragédia no Nepal e a Injustiça da Crise Climática
A avalanche que atingiu o Nepal é um lembrete sombrio da fragilidade de ecossistemas montanhosos diante das alterações climáticas. Enquanto estudos detalhados sobre a dimensão exata do papel do aquecimento global no desastre ainda estão em andamento, o colapso de geleiras e o degelo do permafrost – o solo permanentemente congelado – são consequências diretas e conhecidas do aumento das temperaturas. Esses fenômenos tornam as grandes altitudes perigosamente instáveis, elevando o risco de eventos catastróficos.
Dhakal enfatiza que a conta dos impactos climáticos está sendo paga desproporcionalmente por aqueles que menos contribuíram para o problema. “Países que não contribuíram em praticamente nada, ou cuja contribuição foi mínima [para a crise climática], estão pagando a maior parte da conta dos impactos climáticos. Essa desigualdade precisa ser enfrentada em âmbito global”, afirmou o negociador em entrevista à Folha. Sua fala ressoa o clamor de 46 nações que compõem o bloco dos Países Menos Desenvolvidos, que reúne algumas das economias mais pobres e vulneráveis do mundo.
O Peso do Financiamento Não Cumprido
Um dos pontos cruciais levantados por Dhakal é o descumprimento das promessas de financiamento climático por parte das nações ricas. Esses recursos são essenciais para que países vulneráveis possam se adaptar aos eventos climáticos extremos e mitigar seus efeitos. A falta de apoio financeiro não apenas diminui a capacidade de resposta, mas também aprofunda as desigualdades existentes.
“Como essa resposta global não tem sido tão eficaz, apesar dos acordos firmados no processo multilateral, muitos dos países vulneráveis são obrigados a redirecionar [ao clima] recursos destinados a necessidades básicas, como saúde, educação e construção de outras infraestruturas, o que torna esses países mais pobres”, explicou Dhakal. Ele acrescenta que esse desvio de verbas essenciais leva a um ciclo de endividamento crescente, comprometendo ainda mais o desenvolvimento dessas nações.
Histórico de Desastres e Vulnerabilidade Crescente
Os impactos da crise climática não são novidade para o Nepal. O país tem enfrentado uma série de desastres ao longo dos anos, que servem como alertas da crescente vulnerabilidade. Em 2017, o rompimento de um lago glacial causou inundações devastadoras no rio Barun. Em 2021, chuvas de monção intensas e o derretimento acelerado da neve provocaram alagamentos no vale do rio Melamchi. Mais recentemente, em julho do ano passado, uma enchente relâmpago atingiu o rio montanhoso Bhotekoshi, a mesma região afetada pelo desastre desta semana.
Esses eventos recorrentes demonstram um padrão preocupante e a necessidade urgente de sistemas de alerta e infraestruturas mais resilientes. No entanto, como aponta Dhakal, a implementação de tais sistemas, que poderiam salvar vidas, muitas vezes é cara e depende de tecnologias avançadas, inacessíveis para nações com recursos limitados. A falta de financiamento adequado impede que esses países se preparem e respondam eficazmente.
O Apelo por uma Resposta Global Efetiva
A fala de Manjeet Dhakal é um apelo por uma mudança na abordagem global da crise climática. Ele critica a atenção efêmera que os desastres recebem: “Sempre que ocorrem eventos extremos como esses, todos voltam a atenção para o país afetado, mas, depois de algum tempo, o assunto sai de cena.” Essa falta de continuidade no engajamento e no apoio internacional perpetua o ciclo de vulnerabilidade e sofrimento para as nações menos desenvolvidas.
A discussão sobre perdas e danos, um tema central nas negociações climáticas, ganha urgência com a realidade vivida pelo Nepal. É imperativo que os países com maior responsabilidade histórica pelas emissões de gases de efeito estufa assumam seu compromisso não apenas com a redução de suas próprias emissões, mas também com o apoio financeiro e tecnológico necessário para que as nações mais afetadas possam se adaptar e se recuperar. A solidariedade e a justiça climática são fundamentais para construir um futuro mais equitativo e resiliente para todos. Saiba mais sobre as iniciativas globais para o clima.
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