As ruas de Havana, capital de Cuba, transformaram-se em um cenário de montanhas de lixo, um reflexo visível e alarmante de uma crise multifacetada que assola a nação caribenha. O problema, que se manifesta em pilhas de detritos com mais de um metro de altura e se estendendo por meia quadra, expõe as profundas dificuldades econômicas e os riscos crescentes para a saúde pública, agravados por sanções internacionais e desafios internos de gestão.
A imagem de José Fernández Zaldívar, um varredor de rua de 79 anos que, após limpar o movimentado Boulevard San Rafael, retorna para casa apenas para encontrar seu próprio portão bloqueado por lixo, personifica a dimensão do problema. Garrafas plásticas, palhas de milho e outros resíduos atraem enxames de moscas, tornando a vida diária uma luta constante contra o acúmulo de detritos.
A escalada da crise e seus símbolos visíveis
O cenário de lixo acumulado não é apenas uma questão de higiene; ele se tornou um símbolo potente da deterioração das condições de vida em Cuba. Com a escassez de gasolina para abastecer os caminhões de coleta, as pilhas de resíduos crescem incessantemente, levando moradores a atear fogo ao lixo como uma medida desesperada para se livrar dele.
Em bairros densamente povoados como Havana Central, áreas operárias que já enfrentam a decadência de edifícios, a situação é ainda mais crítica. Ruas como Calle Concordia e San Nicolás veem suas calçadas tomadas por detritos, a ponto de as lixeiras de plástico azul, fornecidas pelo regime, ficarem completamente soterradas. Em alguns casos, a remoção do lixo exige o uso de empilhadeiras, evidenciando a escala da emergência.
Impacto na saúde pública: um alerta sanitário
Especialistas em saúde pública alertam para as graves consequências sanitárias dessa situação. A proliferação de montes de lixo e a presença de água parada criam um ambiente ideal para a reprodução de mosquitos e outros vetores, aumentando o risco de uma explosão de doenças como dengue, zika e chikungunya. Este cenário é particularmente preocupante em um país onde o próprio governo reconhece que seu sistema de saúde pública já opera sob severa pressão.
A situação é agravada pelos apagões prolongados, que se tornam cada vez mais comuns e dificultam ainda mais a manutenção da higiene e o controle de pragas. Quando chove, o lixo flutua e se espalha, e embora inicialmente os moradores possam sentir um alívio temporário, a verdade é que, ao cessar a chuva, os detritos ficam ainda mais espalhados pelas ruas, perpetuando o ciclo de insalubridade.
Raízes do problema: embargo, economia e gestão
Embora a crise do lixo tenha se intensificado nos últimos anos, especialmente após o governo Trump cortar o acesso de Cuba ao petróleo da Venezuela e ameaçar outros fornecedores, o problema tem raízes mais profundas, persistindo há mais de uma década. O embargo comercial imposto pelos EUA há décadas limita a capacidade de Cuba de gerar receita, investir em infraestrutura e adquirir equipamentos essenciais, como caminhões de lixo.
Contudo, a questão não é atribuída apenas a fatores externos. Muitos cubanos e especialistas apontam para a falha do regime em reformar seu ineficiente sistema econômico centralizado. O primeiro-ministro Manuel Marrero, em declarações públicas, reconheceu a falta de recursos, mas também admitiu a ausência de “iniciativa, padrões mais elevados e prioridade” na gestão do problema. A mídia estatal cubana, como o jornal Granma, já em 2014, criticava a “instabilidade da coleta de resíduos sólidos” devido à falta de contêineres e caminhões especializados, além da “indisciplina pública e políticas de pessoal fracas”.
A luta por soluções e a realidade diária
A infraestrutura para a coleta de lixo em Havana é precária. A cidade necessitaria de cerca de 30 mil contêineres de lixo, mas possui apenas 10 mil, muitos deles em péssimas condições. Uma doação de cem caminhões de lixo pelo governo japonês em 2019, que inicialmente trouxe esperança, viu a maioria dos veículos começar a quebrar cinco anos depois. Relatos recentes indicam que apenas 44 dos 106 caminhões de lixo de Havana estão funcionando, um número insuficiente para atender às necessidades da capital.
O regime cubano anunciou diversas soluções, incluindo a criação de rotas de coleta designadas, mas a implementação e a eficácia dessas medidas são constantemente desafiadas pela escassez de recursos e pela complexidade da situação. Enquanto isso, os moradores de Havana continuam a conviver com as montanhas de lixo, um lembrete diário da crise que permeia todos os aspectos de suas vidas.
Para aprofundar a compreensão sobre o impacto das sanções na economia cubana, clique aqui e acesse uma análise detalhada do Council on Foreign Relations.
A crise do lixo em Havana é um sintoma gritante de desafios maiores que Cuba enfrenta, desde a pressão externa até as questões internas de governança e infraestrutura. Acompanhe o Diário Global para mais análises e reportagens aprofundadas sobre este e outros temas que moldam o cenário global e impactam a vida de milhões. Nosso compromisso é com a informação relevante, atual e contextualizada, trazendo a você a profundidade que o noticiário exige.
