Após Lula ficar atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, críticas a Janja se intensificam entre aliados

Após Lula ficar atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, críticas a Janja se intensificam entre aliados

Politica

A corrida presidencial de 2026, com seu primeiro turno já avaliado, trouxe à tona um cenário de desconforto e autocrítica entre petistas e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A desvantagem de Lula na disputa, especialmente após o resultado que o colocou atrás de Flávio Bolsonaro, intensificou as discussões internas e fez com que as críticas à atuação da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, se tornassem mais explícitas.

Em meio ao risco de uma possível derrota, interlocutores do presidente mergulharam em um processo de avaliação profunda, marcado por reuniões tensas. O que antes era um murmúrio discreto transformou-se em questionamentos abertos sobre a excessiva exposição de Janja durante a campanha do primeiro turno, um fator que, segundo alguns, estaria contribuindo para o desempenho aquém do esperado.

Desconforto Crescente e Autocrítica na Base Aliada

As reuniões de avaliação pós-primeiro turno foram palco de um processo de autocrítica que revelou a preocupação da base aliada com os rumos da campanha. O ambiente de tensão era palpável, e a necessidade de ajustar a estratégia para o segundo turno tornou-se premente. Foi nesse contexto que as críticas à primeira-dama, antes mais veladas, ganharam voz e espaço.

A percepção de que a visibilidade de Janja estaria ofuscando a mensagem central da campanha ou gerando atritos desnecessários começou a ser debatida abertamente. A discussão não se limitou apenas ao papel da primeira-dama, mas se estendeu à própria estrutura de poder e decisão dentro do partido e da campanha, apontando para uma necessidade de reequilíbrio e maior abrangência nas vozes que cercam o presidente.

“Menos Janja, Mais Alckmin”: A Voz de Kátia Abreu

Um dos momentos mais emblemáticos dessas discussões ocorreu na terça-feira, 6 de outubro, quando a ex-senadora Kátia Abreu, recém-filiada ao PT, defendeu publicamente a estratégia de “menos Janja e mais Alckmin” para o segundo turno da eleição presidencial. Sua fala foi recebida com aplausos por outros petistas presentes, indicando um consenso crescente em torno da necessidade de uma mudança de foco.

A sugestão de Kátia Abreu fazia alusão à importância de dar maior visibilidade ao vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), que é visto por muitos como um avalista da promessa de responsabilidade fiscal e moderação no governo. A presença mais proeminente de Alckmin seria uma forma de ampliar o diálogo com setores mais conservadores e do mercado, buscando consolidar uma imagem de estabilidade e pragmatismo. Além disso, a ex-senadora também criticou a concentração de poder nas mãos do PT de São Paulo, tanto na gestão da campanha quanto na Esplanada dos Ministérios, sugerindo uma distribuição mais equitativa de influência.

Mensagens Cifradas e Demandas por Mudança na Estratégia

Durante as reuniões, as críticas à atuação da primeira-dama nem sempre foram diretas, mas as “menções cifradas” deixaram clara a insatisfação. Um participante, por exemplo, sugeriu que se “parassem com louvores evangélicos sobre o ‘tapete vermelho'”, em uma clara referência ao jingle de inspiração gospel que Janja cantava em atos de campanha do presidente. Essa observação apontava para uma preocupação com a imagem e a comunicação da campanha, que precisaria ser mais ampla e menos segmentada.

Outro integrante da executiva do partido destacou a necessidade de “romper a bolha que hoje cerca o presidente”, reforçando a ideia de que Lula “gosta de estar ao lado do povo” e que a campanha deveria refletir essa proximidade. A percepção é que a campanha estaria isolada em certos círculos, perdendo a conexão com a base eleitoral mais ampla. Um parlamentar, sem mencionar Janja diretamente, reiterou que Alckmin deveria ter maior evidência, ecoando a opinião de Kátia Abreu e reforçando a demanda por uma estratégia mais diversificada.

Impacto Regional e Repercussão das Ações da Primeira-Dama

As críticas a Janja foram além da exposição e da estratégia geral, chegando a ser responsabilizada por resultados específicos. Aliados do presidente, por exemplo, atribuíram à primeira-dama parte do mau desempenho de Lula em Minas Gerais, um estado historicamente crucial nas eleições brasileiras, onde o presidente havia derrotado Jair Bolsonaro (PL) em 2022. Essa atribuição de responsabilidade sublinha a intensidade da insatisfação e a busca por explicações para o cenário adverso.

Outro ponto de atrito mencionado foi o incidente em que a primeira-dama teria xingado o deputado Nikolas Ferreira (PL) durante um comício. Tais episódios, segundo os críticos, poderiam desviar o foco da campanha e gerar repercussões negativas. Em resposta às indagações, a equipe de Janja, contatada pela Folha e que se manifestou ao jornal O Globo, afirmou que a primeira-dama continuaria ativa na campanha, com o respaldo do presidente Lula, indicando que, apesar das críticas, sua participação não seria cessada.

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